sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

A CASA DE FAZENDA DO "SERROTES PRETO"



Casa tradicional da família Rocha/Medeiros da comunidade "Serrotes Preto" nos dias atuais

Andar pelas ribeiras do nosso Seridó nos permite o compartilhamento e a vivência de agradáveis momentos, não só pelas belezas naturais que nos são apresentadas ou pela agradável brisa que ameniza o calor do sol causticante, o qual na maior parte do dia chega a rivalizar com a insistência do sertanejo que o desafia no transcorrer de suas atividades cotidianas; mas também quando nos deparamos com velhas construções que resistem ao tempo e às intempéries da natureza e que muito têm a nos oferecer, se levarmos em consideração a reconstituição de histórias vividas num passado remoto ou não tão distante assim.
A presença dessas construções no cenário citado reveste-se de grande importância não somente por ter abrigado a sede da administração das propriedades rurais, mas ainda como locais nos quais se concentravam as realizações de toda vizinhança. Algumas se tornaram cidades com o passar do tempo, porém outras permaneceram com seu papel de origem, no entanto serviram de palco para o desenrolar de várias tramas que o cotidiano da comunidade exigisse. Como afirma, pois, Horta quando fala da importância das construções para a História: “[...] Em suas estruturas, formas e usos, revelam um momento determinado do passado e são testemunhas do modo de vida, das relações sociais, das tecnologias, das crenças e valores dos grupos sociais que as construíram, modificaram e utilizaram.”
 De tal modo, muitas dessas casas de fazenda abrigaram escolas, serviram de ponto de encontro para as famílias e seus vizinhos, os quais, ao cair da noite, iam colocar seus papos em dia e espairecer da labuta diária, ou ainda serviram de palco para as celebrações mais especiais, como missas, novenas, bailes de casamentos, batizados, etc. Dessa forma, os moradores destas, e aqueles que ali compareciam iam tecendo a teia de suas vivencias, formando suas identidades, criando vínculos que perduram no tempo e se enraízam em suas memórias. Nesta lógica, insere-se a casa de fazenda do Serrotes Preto. Ela está localizada na parte de uma data de terras que pertencia a José Patrício de Medeiros e que, segundo escrituras encontradas no cartório, em finais da década de 1870 foi vendida ao tenente Salvino José de Figueiredo. Não se sabe exatamente a data de sua construção, mas os documentos nos levam a crer que data do final do século XVIII a início do século XIX, já que em um dos documentos de 1832 faz alusão à mesma.
Conforme um documento de procuração que data de 21 de novembro de 1893, a referida casa, juntamente com a propriedade onde ela se localiza, foi adquirida pelo senhor Bartolomeu de Medeiros e Rocha que ali se estabeleceu e constituiu sua família, originando a denominada “família Berto” habitante ainda hoje da citada propriedade.
Segundo relato dos familiares do referido comprador e de pessoas da comunidade, a casa passou por algumas reformas, o que alterou a sua planta original. Porém, no que diz respeito a sua funcionalidade, a casa continuou servindo de ponto de encontro para os moradores e vizinhos da comunidade, como local de apoio para andarilhos que passavam pela rodagem quando se dirigiam às cidades onde realizariam suas feiras e ainda como espaço onde se realizavam as festas dançantes da região.
No período entre 1946 e 1960 a casa abrigou a Escola Elementar Rural Mista do Serrotes Preto, mantida pelo Estado e cuja instalação foi realizada através do então prefeito de Santa Luzia Juvino Machado e do meritíssimo Juiz de Direito Simião Cananeia, o qual chegou a adquirir livros para os alunos. A escola chegou a ser denominada escola-mãe por ser a única na região. Era frequentada por alunos de várias comunidades, que iam a pé ou a cavalo.

Integrantes da família Rocha ao alpendre da casa.
 Embora nos dias atuais a casa citada encontre-se inabitada, sua existência ainda representa algo importante para os descendentes de Bartolomeu de Medeiros Rocha, tanto aqueles que ainda residem nas suas proximidades quanto os que tomaram destinos um pouco mais distantes, bem como para as demais famílias que habitam as comunidades vizinhas, pois representa um elo entre o passado e o presente. Acima de tudo, ela ainda garante a família Berto e a seus descendentes, a certeza de pertencer a um lugar, a um povo, a uma comunidade, a então denominada Serrotes Preto.
(Texto gentilmente cedido por  Maria Anunciada de Medeiros)

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