segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

DAS PREVISÕES DE INVERNO




Por: Rafael Rubens


Quem nasce no sertão do Nordeste brasileiro certamente já cresce acostumado a ouvir os mais velhos trocando experiências de chuva sempre que um novo ano está para começar. Em tempos e seca, sobretudo, a fé é a única saída para avivar a esperança para os que vivem da agricultura. E é da fé que brotam as experiências de chuva, advindas dos sinais que a natureza gratuitamente oferece todos os dias. É nesse contexto que encontramos os profetas, como são chamados esses experientes colecionadores de nuvens, orvalhos e raios de sol. Afinal, quem nunca ouviu falar em Manoel Luiz de São José do Egito, Pernambuco ou no Monsenhor Expedito Sobral, popularmente conhecido como “profeta das águas” em São Paulo do Potengi do Rio Grande do Norte?
Nomes menos famosos, mas também históricos, permeiam a história do município de Várzea quando o assunto é o inverno do ano vindouro e as experiências que consubstanciam as profecias. A cena é singular e conhecida de todos na cidade: iniciozinho da manhã de um janeiro quente de 1999 e os bancos da praça Joaquim Marinho acomodam homens cujos cabelos e olhares denunciam alguns já bem passados anos dedicados à terra e à observação dos fenômenos climáticos. O ano anterior havia sido de seca intensa e causticante e era natural que preocupações nesse sentido povoassem a cabeça de todos ainda mais dos filósofos do clima. Imaginemos uma conversa entre Manoelzinho Evaristo, Zé Ozório (in memorian) e Antônio Marcilon:
- É, parece que este ano não ser bom também não... Você viu o quebrar da barra do dia de ano? O sol nem raiou direito.
- E ainda por cima o dia começou com um serenozinho bem fininho. Sinal ruim para carregação.
- Mas eu até estou animado, porque ontem de noite a corujinha papo dágua não parava de cantar. E hoje o céu até amanheceu empedrado!
E é por aí que a prosa flui, com a mesma naturalidade e a mesma mansidão poética das nascentes dos córregos que coreografam a geografia do sertão. São muitas as experiências compartilhadas, todas recheadas de sabedoria e tradição empírica. O vento do poente é sem dúvidas o melhor sinal de chuva iminente; o canto lamentoso da mãe-da-lua pela boca da noite soa como a autorização que todo agricultor espera para destocar os roçados para as lavouras; o desabrochar da flor da jitirana e a aparição de formigas de asa, a bolandeira que se forma em torno do sol representam sinais da natureza indicando bom inverno. E ainda merecem destaque as questões de fé religiosa, como a chuva no dia de São José e as experiências com pedras de sal no sereno da noite de Santa Luzia.
Manoelzinho Evaristo é provavelmente o maior nome vivo entre os profetas de chuva varzeenses. É um homem prático e racional e sempre mede minuciosamente cada palavra antes de falar. Quando perguntado sobre os fundamentos de suas experiências, ele para e pensa por longos pedaços de tempo, respira, faz pausa para pensar novamente, pigarra, ajeita o chapéu, reflete mais uma vez até que diz:
- Não é só uma questão de profecia, é observação e base científica. A principal influência a ser observada é ligada aos astros. Por exemplo, o planeta dominante e o regente, eles geralmente exercem influência sobre o clima na terra, aqui no Nordeste principalmente!
 
Manoelzinho de Evaristo, um dos "profetas de chuva" do município de Várzea.

(Arquivo: Marcelo Soares)
O homem fala com tanta fluidez e propriedade que é praticamente impossível duvidar de suas convicções. Mas ele não é o único tampouco o primeiro profetas das águas que passou por nossa terra. Certamente os mais novos não conheceram, mas aqueles que já trocaram umas folhinhas a mais nos calendários devem se lembrar. Personagens que já não estão mais entre nós como Zé Maria, que dizia que o dia dois de fevereiro era místico e determinante para o inverno do ano, Santino Berto e Biró Soares para quem a chuva sempre estava “dos 'Campo' pra Palma!" também eram dados às observâncias e aos flertes com a natureza.
Naturalmente alguns comentários absolutamente maldosos e irônicos sempre surgem nesse meio, é claro. Dizem por exemplo que pobre de Manoelzinho Evaristo olha tanto para o céu a fim de perceber alguma coisa que as nuvens de chuva se encabulam e vão embora. Muita gente insinuava também que Seu Trovão, figura saudosa da história varzeense, juntamente com seus filhos Saul e Paulo eram maus agouros para chuva. Tudo folclore, é lógico. Mas o povo leva o folclore a sério muitas vezes. É bastante famosa uma história de que Seu Manoel Biléu em certa ocasião, aperreado com comprida seca no seu Trapiá teria pedido aos céus uma chuva de picaretas e na mesma noite caiu um toró tão forte que o homem interpretou como castigo. Muitos amarram esculturas de Santo Antônio pelo pescoço pedindo chuva e prometem desamarrá-lo apenas quando a água tocar nos seus pés. E absolutamente não se deve enterrar jumento de cabeça para baixo porque nesse caso não choverá de jeito nenhum! Coincidência ou não, lá pelos idos de 1997 meu tio Zé de Inácio Januário e eu enterramos um jumento dele que havia morrido empazinado  com vagem de algaroba e, bem... já sabemos que o biênio 98/99 não foi nada fácil.
Fato é que o nordestino, principalmente aquele que habita as nuances agrestes do sertão é profundamente ligado à sua terra, e o varzeense é um exemplo claro disso. Por isso tanta fé nas experiências, tanta festa nos banhos de biqueira quando a chuva finalmente vem. Como escrevi há quase dez anos depois de uma chuva inesperada do bom inverno de 2008, "quando chove no sertão é assim, com aquele sabor de presente recebido. Nada como acordar de manhãzinha aspirando aquele inconfundível cheirinho de terra molhada; nada como contemplar o namoro matinal e adolescente dos passarinhos que festejam ao nosso redor; nada como se deixar levar na sinfonia do maravilhoso cântico dos sapos, que, absortos de tudo e de todos, sapo-coaxam a sua indisfarçável e girina alegria na lagoa."

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