terça-feira, 8 de agosto de 2017

UMAS ESTRELAS, UMA BATEIA, UNS RAMOS DE ALGODÃO





Por: Rafael Rubens

O ano de 1985 figura na história varzeense por registrar o maior índice pluviométrico anual de todos os tempos, ultrapassando a marca de 1600 milímetros chovidos. A cidade, governada à época por Manoel Batista de Morais (Babá) contava com 23 anos de emancipação política e dava importantes passos na sua urbanização, com, por exemplo, a construção de vários prédios públicos e o projeto do primeiro conjunto habitacional do município.

A exploração de scheelita na Mina da Quixaba constituía uma das maiores fontes de renda do município e o algodão era o principal produto agrícola da região, exportado para outras localidades, sendo, portanto, um investimento certo na lavoura do pequeno agricultor de nossa terra. Várzea era, então, uma pequena cidade do Vale do Sabugi que, apesar da modesta população de apenas pouco mais de 2200 habitantes se urbanizava a passos largos sem deixar de lado a tradição rural e a cultura mineradora.

Foi nesse contexto que o professor José Jailton Soares de Sousa percebeu que o município ainda não possuía um dos principais símbolos representativos para qualquer cidade emancipada: uma bandeira que desenhasse e colorisse as cores e os costumes do povo varzeense. E então construiu dentro de si a vontade de ser ele, o idealizador do nosso principal símbolo municipal. Recorreu então a um amigo advogado da cidade vizinha de Santa Luzia chamado Pedrinho e este lhe deu umas dicas de como se fazia uma bandeira, dos signos que deveriam estar ali representados como cores e qualquer figura utilizada, do processo burocrático que teria de passar na Câmara Municipal etc. E assim foi.

O professor Jailton decidiu que na bandeira deveriam constar as matizes mais representativas de nossa gente e foi então que o branco ao fundo surgiu, simbolizando a paz e a harmonia tão cultivada pelas famílias varzeenses. Ao contrário do que muitos podem pensar, as cores vermelha e azul não fazem nenhuma referência aos tradicionais grupos políticos do município, mesmo porque, à época, a cor amarela era mais representativa nesse contexto. O vermelho à esquerda da bandeira nasceu como homenagem à mesma cor presente na bandeira da Paraíba e o azul que fica à direita surgiu como homenagem ao céu do Brasil representado na bandeira nacional.

Símbolos municipais do trabalho e do desenvolvimento local também foram contemplados, como não poderia deixar de ser. A bateia exalta o garimpeiro, e figura como uma metáfora da mina da Quixaba considerando toda a sua importância histórica. As estrelas remetem à riqueza do subsolo varzeense e os ramos de algodão fazem referência ao principal produto da nossa agricultura à época. 
Resolução da Câmara Municipal de Várzea que decretou a criação da bandeira municipal em 07 de outubro de 1985. (Arquivo: José Jailton Soares de Sousa)
 O projeto da bandeira foi então levado à Câmara Municipal e aprovado por unanimidade. Assim, o presidente do poder legislativo José Rubens de Medeiros Batista, em nome da Câmara Municipal Várzea-PB, no dia 07 de outubro de 1985, decreta e promulga a resolução número 02, que institui que a partir de então estava criado o principal símbolo municipal de Várzea, sendo autorizado, portanto o seu hasteamento em datas comemorativas e convenientes. Além disso, também ficou de conhecimento público que no dia 11 de janeiro seria comemorado como “Dia da Bandeira do Município”, devendo haver hasteamento obrigatório da bandeira.

A bandeira, como todo varzeense conhece hoje, foi confeccionada em tecido de fino acabamento, conforme sugere a mesma resolução, conservando medidas tradicionais com as mesmas dimensões da bandeira estadual e segue sendo hasteada nos dias atuais, singela e imponente tremulando os valores do povo varzeense para os bons ventos do seridó.

terça-feira, 25 de julho de 2017

NOS TEMPOS DO DOMINGÃO

Equipe do Serrotes Preto, comandada por Chibila, durante o torneio de futebol varzeense no ano de 2000.


Por: Rafael Rubens

Fosse tarde de sábado ou domingo estávamos lá. Depois de um dia de labuta ferrenha no sertão, o fim do dia nos convidava para as batalhas amistosamente futebolísticas naquele campo de massame e contornos altamente irregulares. Passava um córrego no meio e um dos lados do campo era cheio de pedras, portanto ninguém gostava de jogar por aquelas bandas. Era como um brinde semanal compartilhado por aqueles que trabalhavam de sol a sol na luta braçal do dia-a-dia. Nosso troféu era o sol que finalmente esfriava, amainando o calor típico do lugar, e se punha lentamente no ocaso da serrinha como que para assistir aos espetáculos nem sempre pincelados de futebol arte.
A ideia de chamar o campo de Domingão aconteceu por acaso, em 1999, numa brincadeira irônica com Domingos de Biu, um senhor que habitava e na verdade ainda habita por ali, na comunidade Serrote Preto e se recusara peremptoriamente a trabalhar na restauração do campinho numa dessas empreitadas de emergência que o governo sempre propõe em tempos de estiagem. Seu Domingo disse que “emergência era coisa séria, paga pelo governo pra empregar força em coisas que realmente tinham necessidade, não em campo de futebol, que só serve de divertimento para vagabundo.” Foi o bastante. No outro dia a placa de flandres, recortada daqueles silos que o ex-governador Tarcísio de Miranda Burity doou para os agricultores na política de emergência do seu governo. A placa, pintada de forma extremamente precária e amadora anunciava: Estádio de futebol Domingão.
Geralmente as acirradas disputas se davam entre o time de camisa e o sem camisa. As traves não possuíam redes, e o campo não tinha marcação de área, lateral ou meio de campo, o que contribuía ainda mais para as confusões, mal entendidos e interpretações díspares em lances determinantes para a partida. Houve jogos em que a situação mais emocionante foi um chute mascado que saiu para tiro de meta. Mas a emoção maior não estava no futebol, estava na reunião sadia dos nossos fins de tarde. Depois das partidas era bom beber água fria do pote na casa de Tio Zé de Inácio e Vamilton comentando os lances que quase foram gols, as defesas que os goleiros operaram, o fôlego no qual um dos laterais voara de um lado a outro do campo, a feroz dividida no meio... Quem não devia gostar muito desta parte eram Vamilton e Tio Zé, pois depois de mais de uma hora de energia gasta com a correria naqueles empoierados sertanejos, ao cabo de 10 ou 20 homens saciarem sua sede sôfrega e voraz, era pouca a água que restava no fundo do pote. Em tempos de seca isso não era tão engraçado para o dono da casa que precisava reabastecer suas reservas de água potável.
Eu jogava no gol, a posição mais ingrata do futebol. Mas achava incrível a possibilidade de realizar uma defesa mais difícil, de sair nos pés do atacante para impedir um gol praticamente feito. Todo mundo dizia que eu tinha talento pra jogar no gol. Acho que falavam a verdade, pois os três principais ingredientes de um goleiro eu possuía: o reflexo aguçado para voar e defender os chutes mais colocados, a insanidade inexplicável para levar carimbadas no calor da partida e ainda se sentir bem por isso e a nítida falta de habilidade com os pés.
Vinha gente de todo canto para jogar. Da cidade, das comunidades vizinhas, como Xique-Xique, Trapiá e Impueiras Fundas. Mais do que jogar futebol, o bom era confraternizar e esquecer um pouco das adversidades tantas, e das barreiras intransponíveis dos campos da vida. O dono da bola e principal zagueiro do time era um sujeito característico. Tinha 1,85 de altura, era forte quem nem um touro e não parecia ser muito adepto da prática de tomar banho, que o diga quem já teve de dividir uma bola com ele ou praticou uma jogada com mais contato e jurou meio entontecido que jamais faria essa sandice novamente. Chamava-se Chibila. Era ele quem levava a velha bola capotão pra costurar em casa noite adentro à luz da lamparina quando esta furava por ter entrado num espinho de xique-xique ou num toco mais afiado. Chibila era um beque tradicional, tinha um chute potente de bico e uma boa proteção, mas ninguém nunca entendeu por que cargas d’água ele botava meio palmo de língua pra fora e mordia com força na hora de cabecear...
Em uma dessas acaloradas partidas os ânimos teriam se exaltado, o número de faltas aumentou consideravelmente e as jogadas desleais se intensificaram. Sujeito calmo que sempre foi Chibila nunca jogou na maldade, mas nesse dia não aguentou e perdeu a paciência:
- Ah, se é pra quebrar então deixe eu tirar a chuteira e vamos ver quem aguenta!
O Domingão e suas histórias... Às vezes bate uma saudade danada. Naquele tempo a vida era muito mais difícil, mas ser feliz parecia ser muito mais fácil. Bastava a bola rolar e a poeira subir. Talvez fosse o sabor descompromissado da juventude de uns e adolescência de outros. Hoje ninguém joga mais ali, pois todo mundo já encomendou as fatias do seu destino e os jogadores saíram de campo como que impulsionados pelo abstrato som do apito final. O mato está aos poucos tomando conta e o velho córrego intensifica cada vez mais sua faminta erosão. As traves que já foram um dia minhas indeléveis companheiras e a melhor parte da minha sorte de goleiro, começam a ser vencidas pela ferrugem implacável do tempo. Não se ouvem mais os palavrões que só se pronuncia um jogo de futebol, tampouco as batidas singulares e inconfundíveis da bola no chão. Não se vê mais a poeira branca do massame, nem os rastros das motos e das bicicletas daqueles invencíveis jogadores de final de semana. É como se o tempo tivesse fatiado tudo em pedaços de lembrança e depois emoldurado o desbotado retrato de um velho campo abandonado e desacontecido das tantas emoções passadas.

(Crônica originalmente publicada em 21 de agosto de 2011 no portal Substância Literária)

segunda-feira, 24 de julho de 2017

PANORAMA EM PRETO E BRANCO




Por:  Rafael Rubens

Uma vez um sábio varzeense me disse que a gente percebe que está ficando velho quando começa a confundir os anos passados e depois as décadas. Esse sábio tinha nome e principalmente apelido: trata-se do meu saudoso vizinho Inácio Sidney, mais conhecido em nosso município como Poroca de Neguinho. Ele gostava de tomar uma latinha de pitu com pão francês de vez em quando e nessas horas era dado a filosofias de mesa de bar. Gostava de me contar que quando morou no Rio Grande do Sul vira os Engenheiros do Hawaii quando ainda eram banda de garagem, mas sempre se atrapalhava quanto à época em que havia acontecido o fato. Era aí que ria aquele riso frouxo e etílico e surgiam as deliciosas observações filosóficas a respeito do tempo.

 Hoje posso dizer que tenho também essa sensação de confusão de túnel do tempo, e quando lembro de algo que ocorreu há cerca de dez anos, me vem à cabeça os anos 90 e não a segunda metade da década de 2000, como deveria ser. Talvez essa seja uma estratégia que a memória use para me convencer de que eu ainda tenho mais tempo pela frente do que para trás e com isso tenha mais expectativa e menos saudade do que já passou.

 Vivi minha infância e adolescência na Várzea que existia na intersecção dos anos 80 para os anos 90. Anos difíceis, castigados pelo calor e pela escassez, por sua vez provocados pela ação de quatro secas implacáveis (1990, 1993, 1998 e 1999). Naquele tempo, nossa cidade em muito se diferenciava do aspecto charmoso e moderno que possui hoje, com por exemplo muitas ruas sem pavimentação. Vale salientar, no entanto, que a alcunha de “cidade limpa” já valia por aqueles idos, prova de que o varzeense sempre cultivou o hábito cultural de manter sua cidade limpa e organizada a partir de pequenos gestos, como varrer sua calçada todas as manhãs e não jogar lixo nas ruas. Mas também é válido dizer que o aspecto limpo da cidade foi bastante potencializado a partir de 1993, quando o médico Otoni José de Medeiros assumiu a prefeitura municipal e colocou como uma das suas principais metas de governo o saneamento da cidade, com a implantação efetiva de uma rede de esgotos e o decreto para que se evitasse definitivamente que animais de porte médio como cavalos, bois e jumentos não andassem pelas ruas.

A repetidora de sinal de televisão, instalada há pouco tempo, mais precisamente em 07 de Setembro de 1987, durante a gestão do saudoso prefeito Babá Batista, ficava em frente ao ginásio de esportes Joaquim Medeiros de Souto Ducá nos dava o sinal chuviscado de três canais somente: Globo, SBT e a extinta rede Manchete, mais tarde a Bandeirantes. As primeiras antenas parabólicas vieram surgir a partir da segunda metade da década e eram poucos os que podiam adquiri-las, dada a precária condição econômica da época.

Naquele tempo, sinal HD (por HD entenda-se “HOJE DÁ” pra assistir) a gente conseguia era “no braço” mesmo, de forma manual e criativa, na base da bucha de Bombril que colocávamos na anteninha de tevê que ficava dentro de casa. Só assim para os adultos sintonizarem seus aparelhos, em geral preto-e-branco, porque tevê a cores era artigo de luxo, na rede Globo para acompanharem as vitórias de Senna e colorirem as manhãs de domingo, e na Band para o futebol de domingo à tarde. Já a criançada ligava no SBT para se divertir e embalar suas infâncias com o Show Maravilha e anos mais tarde com o Disney Club, e também na Globo, curtindo o Xou da Xuxa, Os trapalhões ou a TV Colosso na hora mais quente do “meidia”. Na Manchete, os olhos ficavam vidrados quando iniciava a musiquinha inesquecível que embalava o seriado de anime japonês Cavaleiros do Zodíaco.

Sinal de telefone só havia um, fora os poucos ramais existentes na cidade, e se encontrava na central da Telpa, onde a telefonista (que na minha cabeça é eternamente Maria Isabel de Zé Crispin) recebia a chamada e mandava um menino de recado sair despedaçado na carreira chamar alguém para atender à chamada, porque dentro de dez minutos a pessoa do outro lado ligaria novamente. O posto, que começara a funcionar em 01/08/1981, teve Aparecida de tio Assis como a primeira telefonista do município. Isabel começou poucos dias depois em 15/08/1981, depois vieram outros como João de Deus de Dolores e Marli Dias.

Só a partir de 1997 ou 1998 é que se instalaram os primeiros orelhões em alguns pontos estratégicos da cidade, como na frente ao colégio Odilon de Figueiredo ou no hospital. E que atire a primeira pedra o menino que nunca ligou para o orelhão do Odilon só para passar um trote no porteiro. Era só escolher o turno de João de Nezinho ou de Chiquinho Ramalho para ouvir repertórios diferentes de palavrões e outros conselhos do outro lado da linha...
Mas certamente uma coisa da qual ninguém da minha geração esquece é de discar 137 sem cartão no orelhão só para ouvir piadas de graça. Quem vivenciou essa época lembra muito bem: a gente fica ocupando a linha só para ouvir piadas e com isso atrapalhava as pessoas que realmente traziam unidades no cartão para fazer alguma ligação séria de verdade. Agora para fazer isso seria necessário escolher muito bem o orelhão, de preferência um com pouco movimento e localizado em um lugar sem fiscalização. Porque, dá até pena lembrar do coitado desavisado que experimentasse fazer isso ou passar algum trote utilizando o orelhão que ficava na esquina de Francisca de João Balbina. Quem foi dessa época, eu tenho certeza, sabe do que estou falando...
 

segunda-feira, 10 de julho de 2017

MAIS CONTOS DE PRAÇA




Por: Rafael Rubens

Observando de maneira fria e distante o panorama histórico varzeense, podemos dizer que muita coisa mudou nos dias de hoje em relação aos anos 90, década na qual vivi meus anos de adolescência. Muito se transformou em nosso lugar, e as mudanças vão além do aspecto físico da cidade. Os costumes e hábitos culturais daquela década eram bastante diferentes também, não que fossem melhores ou piores, apenas diferentes. Não tínhamos ao nosso dispor as seduções tecnológicas da geração “smartphone” dos dias atuais.
Na minha geração os meninos, ao final das aulas no Odilon de Figueiredo, lotavam a Praça Joaquim Marinho por volta das quatro ou cinco da tarde para as disputas de futebol de dupla usando como bola tampas de garrafa Pet. O campo não tinha linhas definidas, era meio que um “showbol” do nosso tempo, e as traves eram os banquinhos da praça que ficavam posicionados um de frente ao outro. E a gente corria, e se relava nos canteiros, e muitas vezes batia boca por um lance banal que pudesse decidir a partida. Algumas rivalidades já eram bastante conhecidas, principalmente quando envolviam personagens que não gostavam de perder, como Jerry de Ernande de Antônio Emídio, Bey de Zé Preto (marcador implacável e muitas vezes desleal), Fabrício de Chiquinho Ramalho, Gone de Finzinho, entre muitos outros. As partidas naturalmente eram acaloradas por demais, como se absorvêssemos o calor típico do sertão para dentro das quatro linhas. Era uma catinga de menino suado capaz de afastar até mães com saudades dos filhos no final do dia.
Era como se as nossas disputas valessem título de Champions League, coisa que, aliás, não era tão democratizada como em nossos dias. Se você acha que os jogadores esforçam-se até a exaustão em uma final de campeonato europeu ou de copa do mundo, é porque certamente nunca viu uma disputa de futebol de travinha com duração de 10 minutos e times de fora colocando pressão para entrar em campo. Ali sim, a gente dava o sangue, e muitas e infelizes vezes de forma literal, quando um mais azarado chutava uma parte “acidentada” do cimento e arrancava o chaboque do dedão.
Ao término das partidas, os que moravam na cidade se direcionavam para suas casas, e os da zona rural (que era o meu caso) se encaminhavam para a esquina onde ficava o bar do finado Amauri, que era o ponto onde os carros que carregavam os estudantes geralmente faziam parada. Era ali que a gente comprava nosso dindim de coco ou de “Quick”, antes de subirmos nas carrocerias de uma das três caminhonetes que nos esperavam: Saulo de tio Renato, Zimar ou Paulo Brito.
Uma lembrança particularmente saudosa que tenho dessa época, mais exatamente em idos de 1996, é do dia em que eu consegui picolé de graça para todo mundo, e olhe que éramos bem uns oito, sem não mais... Foi no Bar Central, então propriedade do senhor Milton Biléu, que morreria naquele mesmo ano. Eu, do alto dos meus 12 anos, era metido a poeta repentista e o homem era admirador da arte do repente; improvisei uns versos lá sobre um assunto qualquer que valeram as delícias geladas. Aliás, não sei se valeram de fato, não lembro muito bem sobre o que falavam, mas os versos certamente eram péssimos, só que ele já havia prometido, aí teve de cumprir a palavra. Só sei que os picolés, estes sim, eram muito bons e melhoraram o sabor de nossas tardes.
Quantas vezes não levamos sonoros carões dos idosos que reivindicavam a calma da praça para que pudessem conversar nos fins de tarde? Lembro-me particularmente de Seu Totó, que sempre ralhava com a gente por estarmos atrapalhando o movimento da praça. Diziam que ele gostava de cuidar dos bancos e os limpava com esmero e carinho singular, porque era um hobby seu passear na praça lá pelo friinho da boca da noite e ficar dando uma de vendedor de cocadas, observando os jovens namorarem nos bancos limpinhos e cuidados. Claro, isso devem ser criações folclóricas do nosso povo...
Outro personagem que se incomodava bastante com nossos jogos na Praça Joaquim Marinho era o cuidador oficial da mesma, conhecido popularmente como Zé do Ovo. Mas a implicância dele era mais específica: dizia respeito ao fato de sentarmos nos encostos dos bancos, o que muitos faziam quando estavam nos times de fora, e vez por outra aparecia um banco da praça com o encosto quebrado. Era aí que o homem ficava fulo de raiva, afinal era o responsável pelo zelo do lugar, e nós, claro, não admitíamos nenhuma parcela de responsabilidade no acontecido; a culpa que fosse para o prefeito, que não construía os bancos com um material mais resistente, provavelmente, segundo nossos argumentos rebeldemente joviais, porque estava embolsando o dinheiro da verba...


Acho que todo varzeense ou mesmo algum visitante de nossa cidade tem alguma história vivenciada na Joaquim Marinho, seja nas brincadeiras da infância descendo no “escorrega” que nunca foi “escorrega” localizado no centro da praça, seja na adolescência, época de namoros no Pergolado e voltas e mais voltas em seu entorno. A Praça Joaquim Marinho já teve outra aparência, antes da reforma de 1993, mas sempre manteve o charme característico de ponto de encontro central. E é ali que guardamos também algumas das nossas melhores memórias, registradas nas marcas de chiclete no chão, nas sementinhas de pau-brasil que muitas vezes guardamos, nos pedacinhos de concreto dos bancos ou canteiros que involuntariamente arrancamos. No calor dos dias de verão, nos serenos das noites sertanejas, os banquinhos da praça continuam por lá, perenes e singelos, convidando ao descanso, guardando lembranças, sendo as melhores testemunhas do centro varzeense de geração a geração e nos fazendo parafrasear o programa de humor fácil da tevê que nos faz repetir o jargão possessivo-aconchegante que nos diz que “a praça é nossa e muito nossa”.