terça-feira, 5 de setembro de 2017

AMEIDIAS DE OUTRORA




Por: Rafael Rubens

Imagine-se a hora mais quente de um dia qualquer no início da década de 1990 em uma Várzea que não existe mais. A nostalgia pinta do cinza da saudade a fotografia de uma cidade ainda pouco desenvolvida, com muitas ruas sem pavimentação, casas bem mais modestas, trânsito composto principalmente por bicicletas Monarks e Calois que caprichavam nas franjas dos selins. Chiquinho de Zuza, por esses idos, é famoso como exímio mecânico das magrelas dentro do município.

 Quem, afinal, não se lembra das famosas bicicletas de Tejo que, vermelhinhas, franjas ao vento, cruzavam a Anízio Marinho na solidão das horas muito quentes, parando aqui acolá para uma discussãozinha política de plantão? Tomás de Inácio Evaristo, por exemplo, é outro cidadão que sempre trazia a bicicletinha como indelével companheira para as feiras que fazia semanalmente vindo das Caiçaras para a cidade, dirigindo-se aos mercados de Zé Borges ou Trovão, mais tarde expandindo as possibilidades para os mercadinhos de Jorge de Trovão, Edson de Zé Padeiro, Ostinho e Amaro.

Ali, bem no pingo do meio-dia, quando o mormaço de mais uma seca no sertão faz a visão ficar turva e as silhuetas das ruas tremerem embaçadas, quase ninguém anda nas calçadas, quase ninguém se arrisca a desafiar o sol escaldante em um céu profundamente azul e sem nenhuma nuvem. Todos ficam abrejados do almoço e do calor, naquela hora em que o cheiro das frituras faz as casas das ruas parecerem uma só.

Alguns ficavam sesteando no descanso de suas casas com as tevês ligadas nas reprises dos Trapalhões que a rede Globo passava ou nos programas de esporte característicos do horário. Muitos sintonizavam os rádios nas emissoras de Caicó ou Patos para ouvir os noticiários policiais da região e os demais, em redes ou cadeiras de balanço, preferiam se espreguiçar à sombra fria das algarobas, que davam o pouco colorido verde à cidade.  

Conforme os minutos do início da tarde se arrastavam lentamente e as caminhonetes que traziam os estudantes da zona rural começavam a chegar, já era possível identificar alguns grupos isolados de meninos brincando de bole-boca, que era como se chamavam os jogos de bola de gude com três buracos feitos na terra frouxa dos canteiros e alinhados em forma de triângulo. Já existiam figurinhas carimbadas fáceis de serem encontradas por ali antes das aulas (as quais alguns deles geralmente gaseavam para continuar o jogo), como Batoré de Firmino Gavião, Miro de Chico Papi, João Batista de Lindomar de Antônio Benjamin, Vaguinho de Vildete, Babá de Osmar de João Cândido.

De dentro de casa, dava pra ouvir a harmonia sinfônica dos passos adolescentes que, em meio a risos e conversas, pouco antes das treze horas se dirigiam aos colégios para as aulas da tarde. Como era uma época de poucos carros e motos nas ruas, de vez em quando o que rompia o silêncio da tarde eram os carros de sorvete que anunciavam aos quatro ventos:

- Tá chegando o sorveteiro! São dez bolas de sorvete por 1 real! É gostoso, é delicioso, é saboroso... Traga a vasilha, traga a vasilha!

E a meninada enchia as ruas de pés descalços sem se incomodar com a quentura do calçamento quente que queimava a sola dos calcanhares, voltando pra dentro das casas em pura empolgação, com seus sorvetes azuis de pedacinhos do céu, que era sabor o predileto da maioria.

Às vezes a calma da tarde era rasgada quando um redemunho desses típicos de épocas de seca se formava de repente e invadia as ruas levantando pro alto todas as folhagens e resquícios de qualquer coisa que se encontrasse nas calçadas da cidade. A poeira cobria e sempre havia alguém que não perdia a chance de gritar bem alto:

- Rapadura Preta!

Rapadura preta é uma expressão regional que praticamente todo sertanejo conhece, usada para expressar a euforia, o susto e a surpresa principalmente dos mais jovens sempre que um redemunho se forma nas ruas e, segundo a superstição de nossa gente, carrega  diabo dentro do seu núcleo.
Então as portas se fechavam às pressas, quem não estivesse corria para dentro de casa, bicicletas porventura encostadas nos troncos das algarobas caíam fazendo barulho. Depois, era um conferir de estragos, como telhas quebradas e entulho que conseguiu entrar pelos frechais. Então pouco a pouco as pessoas iam abrindo as portas, fazendo algum comentário com o vizinho, varrendo a terra mais grossa para fora, dando boas-vindas à tarde que recomeçava e, após a passagem do redemunho, parecia finalmente esfriar um pouco.

segunda-feira, 4 de setembro de 2017

TEMPOS DE INFÂNCIA





Por: Epitácio Germano


Existem tempos que são inesquecíveis. Outros que preferimos esquecer. Mas, com toda certeza nenhum, independente do que se viveu, é mais guardado em nossa memória do que o tempo de infância. Essa fase é um percurso da vida que cada um volta a fazer vez ou outra, como se fosse apenas pelo correr sem limites atravessando as ruas para desafiar os pais. É lembrar daquele barulho intencional provocado apenas para incomodar a vizinhança e até mesmo deixar inquietos os animais que descansam pelas calçadas.
Voltar aos tempos de infância é não deixar adormecido aquele sentimento de alegria e medo misturado à ansiedade do desenvolver dos primeiros passos. É lembrar do sorriso causado pela inocência, correndo do medo que jamais existiu. Era assim, ou pelo menos, na memória da maior parte dos moleques que ficavam sentados na calçada da esquina de Dona Maura, pensavam.
 O ponto famoso pela sombra da castanhola era estratégico não apenas pela localização central, mas também pelo gosto das frutas que cada um disputava na tapa até o horário do almoço. O tempo a que me refiro está marcado no calendário por meados da década de 90. O encontro da molecada ultrapassava o tempo e permitia, independente de idades, reunir na mesma sombra mais de duas gerações. Os maiores eram sempre os personagens principais, os demais, os “café com leite” alvos das fofocas.
 Nessa época, os carros da cidade eram poucos, a tecnologia então, ao máximo era compartilhada apenas pelo som de um rádio. Pouco importava pra quem estava na sombra a existência de alguma televisão, a rua era para todos, naquele momento, o quintal de casa. Todos crescendo em um mesmo tempo e dividindo um com o outro as mesmas experiências e desejos. Dos passatempos compartilhados, esconde-esconde, garrafão, corrida de tampa, doidinho da rua (colocava o amigo meio e tocava a bola para todos). Esse último só parava quando Zé Neto pegava na bola. Sua habilidade era tanta que superava a brincadeira e todos acabavam parando para assistir ele dominar a bola no jogo das embaixadinhas. Havia ainda a observação do trânsito de veículos na pista. Cada um seguia na ordem e aquele que tivesse a sorte de pegar o carro mais novo vencia.
 Deste tempo pra hoje, muito se mudou. Os veículos na cidade aumentaram, a tecnologia virou realidade e geração guardada pela sombra também cresceu. A árvore de castanhola também não resistiu, mas deixou na memória de cada criança, que ali ficava, os frutos de suas sementes marcando o tempo. Restam-se hoje apenas as ruas como corredores vazios, sem gritos e pisadas, sem o som da infância que alegrava a molecada.

terça-feira, 8 de agosto de 2017

UMAS ESTRELAS, UMA BATEIA, UNS RAMOS DE ALGODÃO





Por: Rafael Rubens

O ano de 1985 figura na história varzeense por registrar o maior índice pluviométrico anual de todos os tempos, ultrapassando a marca de 1600 milímetros chovidos. A cidade, governada à época por Manoel Batista de Morais (Babá) contava com 23 anos de emancipação política e dava importantes passos na sua urbanização, com, por exemplo, a construção de vários prédios públicos e o projeto do primeiro conjunto habitacional do município.

A exploração de scheelita na Mina da Quixaba constituía uma das maiores fontes de renda do município e o algodão era o principal produto agrícola da região, exportado para outras localidades, sendo, portanto, um investimento certo na lavoura do pequeno agricultor de nossa terra. Várzea era, então, uma pequena cidade do Vale do Sabugi que, apesar da modesta população de apenas pouco mais de 2200 habitantes se urbanizava a passos largos sem deixar de lado a tradição rural e a cultura mineradora.

Foi nesse contexto que o professor José Jailton Soares de Sousa percebeu que o município ainda não possuía um dos principais símbolos representativos para qualquer cidade emancipada: uma bandeira que desenhasse e colorisse as cores e os costumes do povo varzeense. E então construiu dentro de si a vontade de ser ele, o idealizador do nosso principal símbolo municipal. Recorreu então a um amigo advogado da cidade vizinha de Santa Luzia chamado Pedrinho e este lhe deu umas dicas de como se fazia uma bandeira, dos signos que deveriam estar ali representados como cores e qualquer figura utilizada, do processo burocrático que teria de passar na Câmara Municipal etc. E assim foi.

O professor Jailton decidiu que na bandeira deveriam constar as matizes mais representativas de nossa gente e foi então que o branco ao fundo surgiu, simbolizando a paz e a harmonia tão cultivada pelas famílias varzeenses. Ao contrário do que muitos podem pensar, as cores vermelha e azul não fazem nenhuma referência aos tradicionais grupos políticos do município, mesmo porque, à época, a cor amarela era mais representativa nesse contexto. O vermelho à esquerda da bandeira nasceu como homenagem à mesma cor presente na bandeira da Paraíba e o azul que fica à direita surgiu como homenagem ao céu do Brasil representado na bandeira nacional.

Símbolos municipais do trabalho e do desenvolvimento local também foram contemplados, como não poderia deixar de ser. A bateia exalta o garimpeiro, e figura como uma metáfora da mina da Quixaba considerando toda a sua importância histórica. As estrelas remetem à riqueza do subsolo varzeense e os ramos de algodão fazem referência ao principal produto da nossa agricultura à época. 
Resolução da Câmara Municipal de Várzea que decretou a criação da bandeira municipal em 07 de outubro de 1985. (Arquivo: José Jailton Soares de Sousa)
 O projeto da bandeira foi então levado à Câmara Municipal e aprovado por unanimidade. Assim, o presidente do poder legislativo José Rubens de Medeiros Batista, em nome da Câmara Municipal Várzea-PB, no dia 07 de outubro de 1985, decreta e promulga a resolução número 02, que institui que a partir de então estava criado o principal símbolo municipal de Várzea, sendo autorizado, portanto o seu hasteamento em datas comemorativas e convenientes. Além disso, também ficou de conhecimento público que no dia 11 de janeiro seria comemorado como “Dia da Bandeira do Município”, devendo haver hasteamento obrigatório da bandeira.

A bandeira, como todo varzeense conhece hoje, foi confeccionada em tecido de fino acabamento, conforme sugere a mesma resolução, conservando medidas tradicionais com as mesmas dimensões da bandeira estadual e segue sendo hasteada nos dias atuais, singela e imponente tremulando os valores do povo varzeense para os bons ventos do seridó.

terça-feira, 25 de julho de 2017

NOS TEMPOS DO DOMINGÃO

Equipe do Serrotes Preto, comandada por Chibila, durante o torneio de futebol varzeense no ano de 2000.


Por: Rafael Rubens

Fosse tarde de sábado ou domingo estávamos lá. Depois de um dia de labuta ferrenha no sertão, o fim do dia nos convidava para as batalhas amistosamente futebolísticas naquele campo de massame e contornos altamente irregulares. Passava um córrego no meio e um dos lados do campo era cheio de pedras, portanto ninguém gostava de jogar por aquelas bandas. Era como um brinde semanal compartilhado por aqueles que trabalhavam de sol a sol na luta braçal do dia-a-dia. Nosso troféu era o sol que finalmente esfriava, amainando o calor típico do lugar, e se punha lentamente no ocaso da serrinha como que para assistir aos espetáculos nem sempre pincelados de futebol arte.
A ideia de chamar o campo de Domingão aconteceu por acaso, em 1999, numa brincadeira irônica com Domingos de Biu, um senhor que habitava e na verdade ainda habita por ali, na comunidade Serrote Preto e se recusara peremptoriamente a trabalhar na restauração do campinho numa dessas empreitadas de emergência que o governo sempre propõe em tempos de estiagem. Seu Domingo disse que “emergência era coisa séria, paga pelo governo pra empregar força em coisas que realmente tinham necessidade, não em campo de futebol, que só serve de divertimento para vagabundo.” Foi o bastante. No outro dia a placa de flandres, recortada daqueles silos que o ex-governador Tarcísio de Miranda Burity doou para os agricultores na política de emergência do seu governo. A placa, pintada de forma extremamente precária e amadora anunciava: Estádio de futebol Domingão.
Geralmente as acirradas disputas se davam entre o time de camisa e o sem camisa. As traves não possuíam redes, e o campo não tinha marcação de área, lateral ou meio de campo, o que contribuía ainda mais para as confusões, mal entendidos e interpretações díspares em lances determinantes para a partida. Houve jogos em que a situação mais emocionante foi um chute mascado que saiu para tiro de meta. Mas a emoção maior não estava no futebol, estava na reunião sadia dos nossos fins de tarde. Depois das partidas era bom beber água fria do pote na casa de Tio Zé de Inácio e Vamilton comentando os lances que quase foram gols, as defesas que os goleiros operaram, o fôlego no qual um dos laterais voara de um lado a outro do campo, a feroz dividida no meio... Quem não devia gostar muito desta parte eram Vamilton e Tio Zé, pois depois de mais de uma hora de energia gasta com a correria naqueles empoierados sertanejos, ao cabo de 10 ou 20 homens saciarem sua sede sôfrega e voraz, era pouca a água que restava no fundo do pote. Em tempos de seca isso não era tão engraçado para o dono da casa que precisava reabastecer suas reservas de água potável.
Eu jogava no gol, a posição mais ingrata do futebol. Mas achava incrível a possibilidade de realizar uma defesa mais difícil, de sair nos pés do atacante para impedir um gol praticamente feito. Todo mundo dizia que eu tinha talento pra jogar no gol. Acho que falavam a verdade, pois os três principais ingredientes de um goleiro eu possuía: o reflexo aguçado para voar e defender os chutes mais colocados, a insanidade inexplicável para levar carimbadas no calor da partida e ainda se sentir bem por isso e a nítida falta de habilidade com os pés.
Vinha gente de todo canto para jogar. Da cidade, das comunidades vizinhas, como Xique-Xique, Trapiá e Impueiras Fundas. Mais do que jogar futebol, o bom era confraternizar e esquecer um pouco das adversidades tantas, e das barreiras intransponíveis dos campos da vida. O dono da bola e principal zagueiro do time era um sujeito característico. Tinha 1,85 de altura, era forte quem nem um touro e não parecia ser muito adepto da prática de tomar banho, que o diga quem já teve de dividir uma bola com ele ou praticou uma jogada com mais contato e jurou meio entontecido que jamais faria essa sandice novamente. Chamava-se Chibila. Era ele quem levava a velha bola capotão pra costurar em casa noite adentro à luz da lamparina quando esta furava por ter entrado num espinho de xique-xique ou num toco mais afiado. Chibila era um beque tradicional, tinha um chute potente de bico e uma boa proteção, mas ninguém nunca entendeu por que cargas d’água ele botava meio palmo de língua pra fora e mordia com força na hora de cabecear...
Em uma dessas acaloradas partidas os ânimos teriam se exaltado, o número de faltas aumentou consideravelmente e as jogadas desleais se intensificaram. Sujeito calmo que sempre foi Chibila nunca jogou na maldade, mas nesse dia não aguentou e perdeu a paciência:
- Ah, se é pra quebrar então deixe eu tirar a chuteira e vamos ver quem aguenta!
O Domingão e suas histórias... Às vezes bate uma saudade danada. Naquele tempo a vida era muito mais difícil, mas ser feliz parecia ser muito mais fácil. Bastava a bola rolar e a poeira subir. Talvez fosse o sabor descompromissado da juventude de uns e adolescência de outros. Hoje ninguém joga mais ali, pois todo mundo já encomendou as fatias do seu destino e os jogadores saíram de campo como que impulsionados pelo abstrato som do apito final. O mato está aos poucos tomando conta e o velho córrego intensifica cada vez mais sua faminta erosão. As traves que já foram um dia minhas indeléveis companheiras e a melhor parte da minha sorte de goleiro, começam a ser vencidas pela ferrugem implacável do tempo. Não se ouvem mais os palavrões que só se pronuncia um jogo de futebol, tampouco as batidas singulares e inconfundíveis da bola no chão. Não se vê mais a poeira branca do massame, nem os rastros das motos e das bicicletas daqueles invencíveis jogadores de final de semana. É como se o tempo tivesse fatiado tudo em pedaços de lembrança e depois emoldurado o desbotado retrato de um velho campo abandonado e desacontecido das tantas emoções passadas.

(Crônica originalmente publicada em 21 de agosto de 2011 no portal Substância Literária)