segunda-feira, 27 de junho de 2016

MEMÓRIAS DE "SEU ZÉ"

Por: Epitácio Germano

Festa Junina - Junho de 1971 


Memórias de “Seu Zé”


As ruas são curtas e seus caminhos, embora conhecidos por todos, nem sempre contam com a passagem de andarilhos preocupados com o que a vida pode  oferecê-los em seu cotidiano. Aqui o relógio definitivamente para, não há tempo para pensar diferente... Seu Zé não sabe de cor os valores matemáticos calculados pelos doutores, mas conhece bem os hábitos peculiares de se morar numa cidade de interior. “Se eu conheço meu lugar?” Ah... aqui a calçada é o ponto da conversa e o caminho da rua, o percurso para levar o fuxico de fulano aos ouvidos de sicrano.. E quando se quer chegar para se dizer de amigo, a hora não importa! 
Igual a “Seu Zé” existem outros que também fazem da vida, a mesma rotina que já faz parte da cena comum vista por quem visita a cidade. “Seu Zé” não teve acesso à escola, mas trabalhou durante décadas de sua vida alimentando a família e oferecendo-a, aquilo que de melhor o campo podia lhe dar.
Das festanças juninas, ele recorda que o passado virou uma página esquecida pelo presente, que permanece escrita apenas pela persistência nas memórias de alguns. “Aqui se criou depois do São João... a festa de João Pedro e as famílias brincavam no palhoção do povo, que era feito de madeira e coberto com palha seca na praça do centro... Era um tempo de animação...”A época referida por “Seu Zé” não tinha Old Parr em mesas para esbanjar riquezas e diferenciar os cidadãos, o povo era simples e travestido quase sempre de uma única roupa, em sua maioria confeccionada pelas tradicionais costureiras da cidade e usada durante todas as festas do ano. O tempo era de dificuldade, mas nunca de desunião.
 “Quando a festa começou aqui, a animação era Fernando Som e o forró começava na tarde emendando na noite. Hoje isso não existe mais”.Das festanças em memória também se acham as esquecidas quadrilhas de ruas e os tradicionais, arraiás acompanhados ao som de charangas. Não é difícil perceber que essas imagens de memória transcritas pelas palavras narradas, não fazem mais parte das ruas curtas vistas da casa de “Seu Zé”. A distância do tempo para o relógio no braço de “Seu Zé” que não funciona há quase uma década, não faz diferença para muitos, mas entristece o amor às raízes semeadas por aqueles que ainda guardam na memória, o sonho de histórias diferentes.

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