terça-feira, 25 de julho de 2017

NOS TEMPOS DO DOMINGÃO

Equipe do Serrotes Preto, comandada por Chibila, durante o torneio de futebol varzeense no ano de 2000.


Por: Rafael Rubens

Fosse tarde de sábado ou domingo estávamos lá. Depois de um dia de labuta ferrenha no sertão, o fim do dia nos convidava para as batalhas amistosamente futebolísticas naquele campo de massame e contornos altamente irregulares. Passava um córrego no meio e um dos lados do campo era cheio de pedras, portanto ninguém gostava de jogar por aquelas bandas. Era como um brinde semanal compartilhado por aqueles que trabalhavam de sol a sol na luta braçal do dia-a-dia. Nosso troféu era o sol que finalmente esfriava, amainando o calor típico do lugar, e se punha lentamente no ocaso da serrinha como que para assistir aos espetáculos nem sempre pincelados de futebol arte.
A ideia de chamar o campo de Domingão aconteceu por acaso, em 1999, numa brincadeira irônica com Domingos de Biu, um senhor que habitava e na verdade ainda habita por ali, na comunidade Serrote Preto e se recusara peremptoriamente a trabalhar na restauração do campinho numa dessas empreitadas de emergência que o governo sempre propõe em tempos de estiagem. Seu Domingo disse que “emergência era coisa séria, paga pelo governo pra empregar força em coisas que realmente tinham necessidade, não em campo de futebol, que só serve de divertimento para vagabundo.” Foi o bastante. No outro dia a placa de flandres, recortada daqueles silos que o ex-governador Tarcísio de Miranda Burity doou para os agricultores na política de emergência do seu governo. A placa, pintada de forma extremamente precária e amadora anunciava: Estádio de futebol Domingão.
Geralmente as acirradas disputas se davam entre o time de camisa e o sem camisa. As traves não possuíam redes, e o campo não tinha marcação de área, lateral ou meio de campo, o que contribuía ainda mais para as confusões, mal entendidos e interpretações díspares em lances determinantes para a partida. Houve jogos em que a situação mais emocionante foi um chute mascado que saiu para tiro de meta. Mas a emoção maior não estava no futebol, estava na reunião sadia dos nossos fins de tarde. Depois das partidas era bom beber água fria do pote na casa de Tio Zé de Inácio e Vamilton comentando os lances que quase foram gols, as defesas que os goleiros operaram, o fôlego no qual um dos laterais voara de um lado a outro do campo, a feroz dividida no meio... Quem não devia gostar muito desta parte eram Vamilton e Tio Zé, pois depois de mais de uma hora de energia gasta com a correria naqueles empoierados sertanejos, ao cabo de 10 ou 20 homens saciarem sua sede sôfrega e voraz, era pouca a água que restava no fundo do pote. Em tempos de seca isso não era tão engraçado para o dono da casa que precisava reabastecer suas reservas de água potável.
Eu jogava no gol, a posição mais ingrata do futebol. Mas achava incrível a possibilidade de realizar uma defesa mais difícil, de sair nos pés do atacante para impedir um gol praticamente feito. Todo mundo dizia que eu tinha talento pra jogar no gol. Acho que falavam a verdade, pois os três principais ingredientes de um goleiro eu possuía: o reflexo aguçado para voar e defender os chutes mais colocados, a insanidade inexplicável para levar carimbadas no calor da partida e ainda se sentir bem por isso e a nítida falta de habilidade com os pés.
Vinha gente de todo canto para jogar. Da cidade, das comunidades vizinhas, como Xique-Xique, Trapiá e Impueiras Fundas. Mais do que jogar futebol, o bom era confraternizar e esquecer um pouco das adversidades tantas, e das barreiras intransponíveis dos campos da vida. O dono da bola e principal zagueiro do time era um sujeito característico. Tinha 1,85 de altura, era forte quem nem um touro e não parecia ser muito adepto da prática de tomar banho, que o diga quem já teve de dividir uma bola com ele ou praticou uma jogada com mais contato e jurou meio entontecido que jamais faria essa sandice novamente. Chamava-se Chibila. Era ele quem levava a velha bola capotão pra costurar em casa noite adentro à luz da lamparina quando esta furava por ter entrado num espinho de xique-xique ou num toco mais afiado. Chibila era um beque tradicional, tinha um chute potente de bico e uma boa proteção, mas ninguém nunca entendeu por que cargas d’água ele botava meio palmo de língua pra fora e mordia com força na hora de cabecear...
Em uma dessas acaloradas partidas os ânimos teriam se exaltado, o número de faltas aumentou consideravelmente e as jogadas desleais se intensificaram. Sujeito calmo que sempre foi Chibila nunca jogou na maldade, mas nesse dia não aguentou e perdeu a paciência:
- Ah, se é pra quebrar então deixe eu tirar a chuteira e vamos ver quem aguenta!
O Domingão e suas histórias... Às vezes bate uma saudade danada. Naquele tempo a vida era muito mais difícil, mas ser feliz parecia ser muito mais fácil. Bastava a bola rolar e a poeira subir. Talvez fosse o sabor descompromissado da juventude de uns e adolescência de outros. Hoje ninguém joga mais ali, pois todo mundo já encomendou as fatias do seu destino e os jogadores saíram de campo como que impulsionados pelo abstrato som do apito final. O mato está aos poucos tomando conta e o velho córrego intensifica cada vez mais sua faminta erosão. As traves que já foram um dia minhas indeléveis companheiras e a melhor parte da minha sorte de goleiro, começam a ser vencidas pela ferrugem implacável do tempo. Não se ouvem mais os palavrões que só se pronuncia um jogo de futebol, tampouco as batidas singulares e inconfundíveis da bola no chão. Não se vê mais a poeira branca do massame, nem os rastros das motos e das bicicletas daqueles invencíveis jogadores de final de semana. É como se o tempo tivesse fatiado tudo em pedaços de lembrança e depois emoldurado o desbotado retrato de um velho campo abandonado e desacontecido das tantas emoções passadas.

(Crônica originalmente publicada em 21 de agosto de 2011 no portal Substância Literária)

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