domingo, 28 de março de 2021

O RITO QUARESMAL DO SERRA-VELHO

 Por Rafael Rubens


    Em uma noite tranquila de quinta-feira maior durante a ainda não muito longínqua Semana Santa do ano de 2011 é possível ver alguns jovens sentados na calçada da igreja de São Francisco. Falam baixo e conversam discretamente inebriados pela calma que a noite estrelada transmite. Estão testemunhados apenas por uma luinha mansa que se espreguiça no céu no terceiro dia de cheia e banhados pelo sereno do orvalho da madrugada que dali a pouco chegará. Esperam a Procissão dos Homens, tradição católica muito comum nas pequenas cidades do Brasil, que começará depois da meia noite para celebrar em orações a madrugada da sexta-feira santa, iniciando seu percurso do pátio da igreja e percorrendo algumas das principais ruas da cidade.

    De repente a cena tão singela e peculiar das cidades pequenas de interior é abruptamente rasgada por uma algazarra que se formou desavisada a poucos metros dali, mais especificamente à porta da residência do senhor Joaquim Leitão, fazendo com que os jovens que estavam sentados e absortos na calçada se levantem de um sobressalto e se concentrem no espetáculo bizarro que ali acaba de se desenhar.

    Fazendo muito barulho, um pequeno grupo bate repetidas vezes à janela da casa de Seu Joaquim, e dirige impropérios ao coitado do idoso que por essas horas já deve ter acordado de um estremeço e deve estar tateando alguma explicação no escuro de sua dormida. A expectativa é que o homem, que é conhecido pelo seu constante mau-humor, irrompa de casa a fora a qualquer momento xingando geral para os arruaceiros que vieram incomodá-lo na hora neutra de seu princípio de madrugada. Se ele sair com uma foice ou coisa parecida à mão, melhor ainda para o intento jocoso dos que tiraram o seu sono e lá fora começam a realizar um curioso ritual: com um serrote em uma das mãos e um pedaço de tábua de madeira em outra, um deles começa a serrar a tábua enquanto o companheiro vocifera: “acorda velho, para ser serrado!”. Outro bate com força no tambor de ferro da limpeza pública onde Seu Joaquim coloca o lixo todas as manhãs e um testamento começa começa a ser feito: “Para quem vai deixar os seus muafos, velho? O senhor sabe que não chega à próxima quaresma!”. E o serrote trabalha ecoa com força, entrando na superfície da madeira e completando a metáfora de que o velho acaba de ser serrado. Como ninguém saiu e sequer uma luz foi acesa dentro do recinto, o grupo dá a cerimônia por encerrada e sai dali à procura do próximo idoso que impiedosamente será serrado ainda naquela madrugada. Se algum daqueles jovens que estavam sentados à calçada da igreja esperando pelo início da procissão não conhecia ou apenas ouvira falar nesse folclórico rito quaresmal, acaba de presenciar um serra-velho.

    A tradição dos serra-velhos é antiga no Norte e Nordeste do Brasil e remete ao início do século XVIII, quando o picaresco ritual europeu da “serração da velha”, tradição portuguesa antiga ligada a simbologias de regeneração e renovação, foi incorporada ao nosso calendário e pintado com a diversidade das nossas cores regionais. Em Várzea então, ganhou os contornos da irreverência e da ironia do nosso povo configurando-se como um legado cultural que vem se renovando a cada nova semana santa que se anuncia no calendário quaresmal.

    Para se ter uma ideia da importância cultural dessa tradição, diga-se de passagem, nem sempre vista com bons olhos por aqueles que garantem a segurança e a ordem pública, consta na bibliografia folclórica da Paraíba, mais especificamente na página 84 da terceira edição do Cancioneiro do Norte, uma referência direta ao ritual do Serra-velho:

“Pela quaresma é o serra velho: um bando de vadios conduz barricas, serrotes e chocalhos, e às horas mortas estaciona à porta dos velhos mais rabugentos e jarretas, e improvisam versos picarescos, numa algazarra infernal, com exclamações, choros fingidos e tantas outras graçolas, supinamente agressivas a quem já desce os últimos barrancos da encosta da vida”.

    Na verdade essa tradição vem acompanhando as gerações varzeenses e há muito tempo é comum presenciar, ouvir falar ou, na pior das hipóteses, ser “homenageado” em um desses barulhentos episódios com serrote e tábua de madeira.

    Seu Florêncio Lutico, por exemplo, é bem provável que esperasse toda sexta-feira santa com certo desassossego, posto que tantas foram as vezes que algum desses grupos de gaiatos de quaresma foi espezinhar o seu merecido descanso noturno. Conta-se que em uma dessas vezes ele teria saído armado de espingarda, cuspindo cobras e lagartos, bradando ameaças contra o grupo que, em meio a um politicamente incorreto palavreado, o convidava para ser serrado.

    Como Florêncios e Joaquins, tantos outros idosos de nossa hoje sexagenária Várzea já vivenciaram a mesma situação desde que que ela engatinhava em sua infância de distrito com o nome de Sabugirana, e é natural que alguns deles recebam o ritual de serragem com bom humor, por mais que os escolhidos sejam justamente os reconhecidamente mais ranzinzas do local, afinal, um dos intentos do serra-velho é exatamente a reação de raiva e revolta que esse burlesco evento provoca.

    É bem provável que aqueles jovens que se encontravam sentados na calçada da igreja na noite daquela véspera de sexta-feira da paixão tenham parado nem que seja por um segundo para refletir acerca do significado da velhice e dos ciclos de transformação da vida em nossa sociedade, pois eles transformaram-se em testemunhas oculares de uma tradição secular, que, por mais polêmica que seja, faz parte das comemorações religiosas das quaresmas varzeenses, compondo parte importante o folclore do município, e, ao que parece, que está longe de acabar.



Nenhum comentário:

Postar um comentário