segunda-feira, 29 de março de 2021

SANTA SANGRIA

Açude Água Azul, 1993. (Arquivo: Bento de Zilda)

Por Rafael Rubens


    O ano de 1990 foi um ano que os varzeenses não gostam muito de lembrar, em virtude da estiagem severa que acometeu o município. Muitos perderam as lavouras que haviam plantado logo no início do ano, iludidos com as chuvas de verão que marcaram a despedida de 1989. Naquele ano, duro para agricultores e criadores que tiveram de dar xique-xique queimado para o seu gado se alimentar, a construção de um açude na comunidade Serrotes Pretos começava, visando justamente solucionar os constantes problemas de abastecimento hídrico da cidade. O açude Água Azul, construído no mesmo local onde antes existira o antigo açude de Chicó Berto, cujo balde arrombara com as aguas do inverno nos anos de 1930, renasceria como um grande manancial de água potável represando esperanças para muitos varzeenses, e as margens do Riacho da Cozinha, de onde viria a sua principal vazão de água, serviriam como férteis vazantes para os agricultores das comunidades rurais.

    A construção do açude durou alguns meses e ainda em 1990 a obra estava entregue, pronta para receber as chuvas que se Deus quisesse, viriam lavar as almas dos varzeenses no ano seguinte. Todos no município já sonhavam em ver aquele açude cheio e imaginavam como e quando seria a sua sangria inicial. No entanto, nem o mais católico dos habitantes no município imaginava que a natureza prepararia um evento histórico e poético, daqueles que só acontecem para ilustrar a comprida e extraordinária narrativa de nossa cidade.

    Era a quinta-feira maior da semana santa de 1991, quando espessas nuvens se formaram no céu no final da tarde anunciando que uma chuva pesada se aproximava. O horizonte transformou-se em uma coisa só, vestido de uma branco diáfano que parecia querer se derramar a qualquer momento na terra, e o clima abafou como nunca, dando as evidências que faltavam de que aquela não seria uma chuva qualquer. Então, pela boca da noite, a água começou a cair e parecia que nunca mais pararia de chover. Foi uma chuva grossa, intensa e constante, daquelas que descem para desenhar correntezas nas planícies. O açude Água Azul, jovem e robusto, com o anfitrião que dá boas-vindas, não demorou muito a receber a água que descia do riacho.

    Pelos lados da Serra da Cozinha, a chuva foi ainda mais forte, alimentando as cabeceiras do riacho com um imenso fluxo de água e fazendo os córregos rasgarem seus cursos em enchentes. Seu Totó, que por ali habitava teria colocado duas vezes o pluviômetro para medir o tamanho da chuva, mas, segundo contava, da segunda vez que transbordou, ele parou de contar os milímetros daquela chuva. Estima-se que naquele dia tenha chovido mais de 250 milímetros nas cabeceiras da serra.

    Seu Zé Ricarte, outro senhor conhecido por todos no município, também morava no pezinho da Serra da Cozinha na comunidade Ipueiras Fundas e pode observar de forma privilegiada a fúria da cheia que por ela descia violentamente fazendo com que ele experimentasse sensações mistas de encanto e assombro ante o espetáculo colossal que a natureza apresentava ante seus olhos já tão vividos para serem pegos de surpresa. Conta-se que ele, com a porta de cima sutilmente entreaberta, teria se dirigido a esposa à porta murmurando:

    - Maria, venha cá olhar uma coisa... É hoje que o açude do Serrotes Pretos passa no teste!

    Naquela manhã de sexta-feira santa quem morava nas imediações do açude Água Azul na comunidade Serrotes Pretos acordou com o ronco da sangria anunciando o espetáculo do inverno que se consolidara de vez naquele pedaço de sertão.

    Gente de todas as comunidades vizinhas e mesmo da cidade chegava para contemplar a primeira sangria daquele que a partir dali havia passado a ser o maior manancial do município. Seu Severino Sitônio, por exemplo, era um desses visitantes que estava exaltando felicidade em cima do balde do açude com toda a sua família, comemorando feito menino, totalmente esquecido dos perigos que existem em passear sobre o balde de um açude que debuta em sua primeira sangria, sobretudo na parte central da parede, onde o riacho da cozinha açoitava um fluxo de água cada vez maior.

    Como Seu Severino Sitônio, havia muitos ali, grupos inteiros de famílias que quiseram ver de perto o Água Azul passando no teste que Seu Zé Ricarte havia mencionado na noite anterior. Para todos os varzeenses, aquele dia 29 de março de março de 1991, há exatos 30 anos atrás, foi inesquecível, com sabor de indescritível felicidade. Se perguntássemos a qualquer uma das pessoas que ali estavam sobre o significado dos acontecimentos daquele dia, ela certamente responderia contagiada pela beleza da magia gratuita que a natureza forneceu e afirmaria que a sangria do Água Azul havia sido um presente de Deus, um milagre de sexta-feira santa.


 

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