quarta-feira, 30 de junho de 2021

DO XIQUE-XIQUE À QUIXABA

Quadra da Quixaba em seu estado atual, onde era realizado o Galdino nos anos 80 e início dos anos 90.



Por Rafael Rubens


Os que conheceram o senhor Galdino Pedro da Silva, chamado por todos simplesmente de Galdino do Xique-Xique hão de testemunhar a sua simpatia bem como seu espírito festeiro. Era um conversador inveterado, exímio no trato das hospitalidades, recebendo todos os passantes na sede da fazenda Xique-Xique com um sorriso no rosto e o convite para arrastar uma cadeira. Também carregava em si a veia do bom humor e da alegria, por isso colecionava amizades por todos os cantos do município e não à toa era considerado o melhor apregoador dos leilões que eram realizados pelos idos de agosto e setembro, quando cada comunidade rural realizava sua novena seguida de leilão para ajudar na festa do padroeiro São Francisco. Ranzinza em casa, algo caracterizava o velho Galdino e que talvez poucos saibam é a rivalidade doméstica que ele tinha alguns dos seus os irmãos, como Maria Pedro, Lau e João Pedro. Com  Maria Pedro e Lau a coisa descambava para o terreno das discordâncias. Eles costumavam teimar por quase tudo e se provocar mutuamente com deliciosas chincadas que acabavam divertindo quem estivesse assistindo.

 Com João Pedro, por outro lado, existia uma certa disputa de hierarquia. Galdino, por ser mais velho, não gostava muito que João Pedro tomasse a liderança das decisões da família, por isso muitas vezes o alfinetava, recusando-se por exemplo a tomar do leite servido no jantar, ironizando que como não era dono de nenhuma das vacas da fazenda também não teria direito à porção do leite que lhe reservavam.

Galdino do Xique-Xique.
Arquivo: Antônia Cristina


Religioso, Galdino costumava rezar todas as tardes concentrado em seu quartinho pegando com fé nas contas de seu rosário. Aos que admiravam o tamanho da disciplinada fé do homem, João Pedro tratava de quebrar o romantismo religioso da situação, dizendo que Galdino rezava durante a tarde para brigar quando a noite chegasse. Era uma rivalidade sadia, fraterna, que na verdade provocava mais o riso nos expectadores. A verdade é que quem passava pelos lados do Xique-Xique e como de costume, obrigatoriamente parava para um cafezinho e dois ou mais dedos de prosa com a família mais feliz do município, não concebia João Pedro sem Galdino e vice-versa, porque eles se complementavam em tudo, desde a alegria acalorada de bons anfitriões à criatividade usada nas provocações jocosas entre si.

Talvez por conta disso, quando o João Pedro, tradicional festa de São João fora de época da cidade começou a ser realizado em julho de 1984 unindo as festividades de São João e São Pedro, o então vereador Chico da Quixaba, amigo da família do Xique-Xique, pensou no trocadilho com os irmãos e decidiu homenagear Galdino, dedicando-lhe o forró na fazenda Quixaba com o seu nome. Era a tradição dos forrós nos sítios que escrevia mais um capítulo na história varzeense. A quadra da Quixaba, cujo terreno havia sido doado pelo ex-prefeito Mário Pergentino e construída pelo prefeito Babá Batista com a colaboração dos jovens entusiastas do futebol de salão da época, ficou sendo o palco para realização do evento.

O Galdino acontecia sempre no último final de semana de julho, o que se dava exatamente duas semanas após o João Pedro. Organizado ainda nos anos 80 durante a gestão de Babá, o Galdino era uma forma de relembrar as festividades juninas e provar que o varzeense tem um espírito forrozeiro insaciável.

No início dos anos 90 inclusive, em uma entrevista à rádio Espinharas de Patos, o prefeito Otoni Medeiros citou o Galdino como uma referência a um “cidadão” do município e teria brincado com o trocadilho do nome da festa, sugerindo que também o João Pedro já homenageava outro munícipe, o qual, todos sabiam, se tratava de João Pedro do Xique-Xique, apesar de o nome João Pedro advir na verdade da junção dos dois santos católicos juninos.

Como Galdino do Xique-Xique, o “Galdino da Quixaba” também era folclórico, alegre e hospitaleiro, convidativo como o são os forrós realizados na zona rural varzeense e caracterizado pelo charme regional das festas de interior nordestino. Era acabar o João Pedro que o pessoal que organizava a festa, sobretudo quem morava na Quixaba, já corria para reaproveitar a decoração da principal festa da cidade para deixar a quadra da Quixaba muito mais colorida com os balões e as bandeirolas e esquentar as saudades forrozeiras com um último arrasta pé em alusão aos festejos juninos do ano.

Do Xique-Xique à Quixaba, quando se fala em Galdino a certeza que todos têm é que ele deixou sua marca na história de Várzea, relevando-se com leveza e graça nos palcos por onde brilhou, fosse contagiando a todos com a alegria do forró ou com o bom humor das apregoações de leilão. O do Xique-Xique teve uma existência longeva e feliz encantando gerações e gerações à sua volta com o jeito de ser peculiar. O da Quixaba foi intenso na mesma proporção que foi efêmero, durando poucos anos e deixando de acontecer ainda dos anos 90. Fato é que mesmo hoje na velha quadra da fazenda Quixaba o Galdino ainda se faz presente, embora que apenas na fotografia desbotada pela ação do tempo ou na saudade que dá cor às recordações e transporta de volta ao passado, reavivando a memória de quem participou de alguma de suas edições e trazendo à tona a lembrança do folclórico personagem xique-xiquense que o inspirou.


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