sábado, 3 de julho de 2021

HISTÓRIAS DE BOLEIA: VIAJANDO COM BASTO PEREIRA


 

Por Epitácio Germano


Viajar em um caminhão pau de arara por quatorze quilômetros enfrentando a madrugada e recebendo a poeira como cobertor foi a realidade de muitos estudantes nos meados da década de 1960. O enredo lembra também um pouco do período que muitos tropeiros saiam do Sertão e cruzavam o Cariri para comercializar alimentos, alguns em caravanas formadas por cavalos, e outros raros casos, em veículos com cargas amarradas com corda de nylon.

Basto Pereira começou sua vida trabalhando na atividade da mineração, e depois como ajudante de Dedé Marinho, mecânico de grande referência na região do Sabugi, aprendeu a dirigir e passou a transportar cargas de barita cortando a serra de Santa Luzia em subida ao planalto da borborema. Foi assim como funcionário, e alguns anos à frente, ao conseguir comprar o seu primeiro veículo próprio, um Ford F600 importado ano 1957, assumiu a responsabilidade de ser o motorista dos estudantes a serviço da Prefeitura de Várzea, na então primeira gestão do prefeito Mário Pergentino, a partir do ano de 1965.

Em seu diário de estradeiro, Seu Basto como também é chamado carregava a responsabilidade de estacionar o seu caminhão importado todas as madrugadas da semana na rua entre o Mercado Público e a Praça Joaquim Marinho, e aguardar a chegada de cerca de 100 estudantes, a maioria advindos de sítios com mais de dez quilômetros de distância, para seguir viagem até Santa Luzia, cidade mais próxima e que na época ofertava a formação do segundo grau (ensino médio). O ronco da partida do motor rompendo o silêncio das ruas, seguido da fumaça do escape, eram apenas rituais comuns e que ditavam as muitas viagens daquela época, como se fosse um ensaio sincronizado envolvendo as batidas dos feixes de molas do caminhão, enquanto as rodas pulavam os buracos da estrada de terra, aos gritos “arranca o mourão!" e “tire o pé do freio!” tudo sendo combinado entre os alunos.

A expressão "mourão" gritada pelos estudantes durante as algazarras em cima do lastro do caminhão, alguns viajando em pé imprensados na confusão e, outros disputando os bancos de madeira de carnaúba, era uma referência ao apelido popular atribuído ao motorista, que ganhou o título folclórico na história local de "arranca mourão”. Além de motorista dos estudantes, Basto Pereira, acabou acumulando outras funções e costumava dirigir mais caminhões além do seu, esses pertencentes à Prefeitura. Segundo ele próprio conta, o apelido surgiu em um dia comum como qualquer outro de quem convive com a realidade do Sertão, sol forte e muitos afazeres, e entre esses afazeres, Seu Basto precisou de realizar uma viagem no caminhão caçamba com o diferencial mecânico quebrado, a pedido de Mário Pergentino no sítio esguicho. No retorno a cidade, a caçamba bateu com sua basculante em todos os mourões, espécie de estaca utilizada para sentar porteiras, no solo. Horas após a viagem, Mário Pergentino perguntou de forma humorada o que havia acontecido com Basto na viagem, já sabendo que nenhuma porteira no caminho do esguicho havia ficado com o mourão de pé. Daí pra frente, a expressão “arranca mourão” passou a fazer parte do cotidiano da vida das pessoas, para rotular aquele motorista, que por alguma razão, cometesse algum erro no volante ou ato bizarro.

Apesar de ser lembrado por ter transportado muitos estudantes, Seu Basto, teve participação também no crescimento da cidade, sendo o responsável pelo transporte das primeiras pedras de paralelepípedo para construção de calçamentos. Nas muitas viagens transportando estudantes, o caminhão falhava, e certa vez chegou até saltar uma roda na curva da Pitombeira, o que causou susto devido à queda de um estudante da carroceira, mas sem o registro de nenhuma intercorrência grave.  Entre outras tantas peripécias aprontadas pelos alunos, além dos furos na lona do caminhão, é a lembrança de um desenho de um boneco feito sobre o teto da boleia do caminhão, desenhado por Luzia de Izidoro. O desenho em formato de boneco tinha alguns círculos e traços, o que segundo a própria autora, representava a imagem do motorista. O episódio deixou Basto Pereira inquieto, fazendo com que, logo após a viagem, ele fosse direto a residência dos pais da estudante, para denunciar sua insatisfação com a obra de arte.

Devido a pouca compactação do solo, a viagem tinha uma duração de cerca de uma hora, o que exigia paciência, característica comum ao perfil de Basto Pereira, que costumava economizar no pedal do acelerador, mantendo sempre o ponteiro do velocímetro do caminhão em uma média de 30km/h. Nos meses de chuva, o caminhão quebrado durante a viagem era motivo de euforia para alguns estudantes, que aproveitam da circunstância e se banhavam nos barreiros as margens da estrada, antes de retomarem pra casa caminhando em comboio com seus cadernos e lápis.

De mineiro a arranca mourão, Basto Pereira, fez sua história atrás do volante, e se manteve na mesma função por mais de 30 anos como prestador de serviço, ultrapassando as gestões comandadas pelos prefeitos João Balbina, Babá Batista e Otoni Medeiros. Depois de seu primeiro caminhão importado, comprou ainda um caminhão Chevrolet 1963, e depois de aposentado, passou a dirigir aos sábados transportando passageiros para a feira de Santa Luzia, ao lado da sua esposa Dalva, em suas caminhonetes: uma C 10 azul cor do céu, e depois uma D 10, branca movida a óleo, que lembrava muito o ronco pesado do motor de seus antigos caminhões que cortava o silêncio das madrugadas. Foi assim até o fim da década de 1990.

Responsável por diminuir a distância entre o conhecimento e os estudantes daquela geração nascida depois dos anos 50, Seu Basto conseguiu dentro da sua experiência de vida unir trabalho e responsabilidade, qualidades comuns de quem deseja vencer na vida. Nesse caso, além de missão, a sua colaboração dentro do contexto da história foi além das curvas e muitas subidas de terra.

4 comentários:

  1. Não era segundo grau só não e sim de quinta a oitava séries também, eu estudei viajando nesse caminhão da quinta série ao segundo ano médio

    ResponderExcluir
  2. Viagei agora relembrando esses tempos. Seu Basto que homem educado e competente! Andava um pouco devagar mas a gente adorava ele. Obrigado Epitácio por manter vivo essas lembranças

    ResponderExcluir
  3. Como é bom lê textos assim. Epitácio, parabéns pela sua iniciativa de homenagear a história de Várzea

    ResponderExcluir
  4. Saudades de seu Basto. Valeu Epitácio, voce é fera!

    ResponderExcluir