domingo, 20 de junho de 2021

AS MAIS BELAS VOZES DA VIDA REAL

Dona Luzia fazendo o que mais a faz feliz: cantando.
(Arquivo: Miriam Medeiros)

 


Por Rafael Rubens


Uma vez Dona Luzia de João Chicó me disse que gostava de cantar para enganar o tempo, sendo a música uma companheira fiel em seu constante lidar com as vicissitudes da vida.  Quem é de Várzea obviamente conhece Dona Luzia, afinal ela é um daqueles seres humanos iluminados que nasceu para brilhar, cantando e dançando pelos palcos que encontra em sua caminhada, por isso é fácil de testemunhar que a música sempre a acompanhou pelos teatros da existência. Onde Dona Luzia está a animação é garantida, porque ela só precisa de plateia. Nem de instrumento, como o seu velho violão, companheiro inseparável para pontear a “Marcha dos Marinheiros” de Dilermando Reis e fascinar as pessoas que a cercam.

Como Dona Luzia, muitos varzeenses da vida real carregam em si a música como antídoto para suas tristezas ou como instrumento natural para embalar as suas alegrias. Nas farinhadas de meados dos anos 60 e 70, por exemplo, João de Zé Arcanjo gostava de cantar Nelson Gonçalves e realizar sua própria seresta. Conta-se que certa vez ele teria se incomodado com o fato de alguém ter acendido um cigarro no recinto no meio de uma de suas interpretações. Parou a canção e indagou: “Quem está fumando aí? Está atrapalhando a minha garganta!”.

 Já Sebastião de Ezequiel não parava de cantar nem sob as condições mais adversas, como quando usava seu repertório para enganar a dureza do trabalho braçal de arrancar tocos de jurema nos campos do roçado e fingia sorrindo que o sol causticante do sertão eram as luzes do palco que lhe iluminavam. “Quem canta seus males espanta!”, me dizia minha mãe repetindo o provérbio popular enquanto escolhia feijão na nossa velha mesa de pinho e entoava uma antiga canção de Emilinha Borba.

Não faz muito tempo surgiu nas redes sociais um raríssimo vídeo no qual se podia ver uma gravação caseira e matar as saudades de Cacheado, icônico personagem do folclore varzeense. No vídeo ele canta descontraidamente a famosa marchinha de carnaval de 1948 “Chiquita Bacana” e em seguida o clássico “Buraco de tatu” gravado por Luiz Gonzaga em 1956. A gravação, feita da casa de Dona Lúcia de Quinca e  publicada na página “Fotos e Vidas de Várzea” emociona principalmente porque nos faz recordar de Cacheado em sua forma mais natural: feliz, cantando as canções que marcaram sua juventude. Ele sempre cantava quando se sentia confortável, absorto em suas tarefas de pedreiro; como quando construiu bancos de praça no quintal de sua própria casa ou quando trabalhava de cuidador voluntário do pergolado da antiga praça Joaquim Marinho.

 A música é para todos um depositário de saudades, canoa que nos transporta rio acima, rio abaixo pelo curso de nossas lembranças, e talvez fosse nessas horas que Francisco, o nosso querido Cacheado gostasse de embarcar para reviver o mundo em que ele foi um dos grandes pedreiros que construiu Brasília nos anos 50. Quando ele cantava, sabíamos que ele estava feliz, porque afinal, a música contagia as pessoas e é patrimônio imaterial de todo mundo.

Pessoas simples, do povo, como Dona Luzia, Basto de Ezequiel, Cacheado ou João de Zé Arcanjo podem até nunca serem chamados de cantores, mas isso pouco importa. O reconhecimento dos outros não é mais importante do que as suas próprias sensibilidades e em todos eles a música vivia ou vive como arte genuína que se manifesta como uma necessidade de expressão. Eles jamais ganharam um dos famosos concursos de mais bela voz que aconteceram na cidade entre os anos 80 e 90, na verdade sequer participaram de algum. Mas são personagens reais de uma história viva,  cujas vozes ecoam e encantam quem as ouve.

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