segunda-feira, 25 de outubro de 2021

MATEMÁTICOS SEM FORMAÇÃO

 


Por Epitácio Germano e Rafael Rubens

 

A aurora do dia ainda corta o céu, quando em fração de segundos, o azul celeste do horizonte dilui sua tonalidade com o laranja coral misturado aos primeiros raios do sol nascente. Na conta de muitos homens e mulheres simples do passado que fincavam seus sonhos nas terras varzeenses, o dia começa antes mesmo de todo esse contraste de cores pintado no céu. O cantar do galo sobre o solo, por exemplo, das Caiçaras e a chegada da luz ensaiando subir a ponta da Serra da Cozinha são sinais que os ponteiros do relógio se encontram com angulação de 160 graus, ou seja, 5 horas da manhã.

  Na realidade da vida no campo, o bater da hora indica também o ponto de partida para o início do trabalho ou muitas vezes a pausa para uma pequena xícara de café minguada depois de prender o gado no curral e soltá-lo para pastorear o dia. Eis a rotina da maioria das pessoas que habitava a zona rural do município pelos idos do século passado, contada a partir da percepção do tempo, do cumprimento das obrigações e da contagem dos minutos que descrevem a completude de cada dia. A conta nem sempre é exata, mas a matemática da vida está além dos números, perfazendo-se nas ações e caminhos tomados nas veredas da existência.

É nesse contexto totalmente simples e natural que nascem muitos matemáticos autodidatas de nossa terra, os quais mesmo muitas das vezes iletrados fazem da vida sua universidade e distribuem seu conhecimento de forma gratuita, transmitindo seus métodos e conceitos de lógica para os mais próximos ou mesmo para qualquer um que tenha sede de conhecimento.

 

Números na parede

Renato Quintino em sua icônica cadeira de balanço. (Arquivo: Antônia Medeiros)

 Renato Quintino não teorizava com fórmulas a conta do dia, mas conhecia pela experiência de vida, o cálculo que levava a cada resultado daquilo que ele acreditava a partir da força do trabalho. Homem do campo, trabalhou a vida inteira na agricultura e pecuária e, por força das circunstâncias de seu tempo, dedicando-se pouco à educação formal dos bancos escolares.

No pouco tempo que passou na escola do sítio Serrotes Pretos, porém, teve o privilégio de aprender com o mestre Aureliano Augusto Dávila, que além de ter sido soldado da linha de tiro do exército brasileiro, era conhecido por sua didática e seu imenso conhecimento pedagógico para ensinar as primeiras letras bem como os princípios lógicos da arte de calcular. E Renato soube levar esse conhecimento para a vida, aplicando conceitos de lógica aritmética no cotidiano e no trabalho com a terra.

Quando já casado e pai de família, cuidava da fazenda de Selene e Doutor Erival no Xique-Xique, ele utilizava conhecimentos de geometria os quais nem julgava conhecer para realizar a cubação da terra segundo seus métodos próprios. Além disso, ao se tratar da administração das reses da propriedade, ele também possuía uma maneira pessoal de categorizá-las e registrá-las, anotando em carvão nas paredes de tijolo da fazenda os valores referentes ao universo dos animais, como preços de compra e venda e tabelas distributivas para machos e fêmeas.

De certa feita, quando já estava aposentado, estava ele na fila da agência do Banco do Brasil em Santa Luzia quando se desenvolveu uma pequena discussão matemática acerca da idade de um dos senhores, como, aliás, é muito comum acontecer quando idosos se reúnem e se dão a falar de seu passado, rememorar seus feitos e mesmo disputar quem já viveu mais. Um dos homens argumentava ter idade X por ser nascido em tal ano, enquanto o outro teimava que na verdade a idade era Y. Renato, percebendo que a discussão se alongava, entrou na seara dando o resultado exato para o debate etário. Mesmo assim, um dos senhores não se deu por vencido e pôs em dúvida evidência aritmética dos cálculos dele, ao que Renato, já sem paciência, teria redarguido: Amigo, o senhor está falando com o maior matemático da Paraíba! – e até onde se sabe, diante dessa carteirada aritmética, o homem se calou e se retirou da discussão aceitando o resultado final.

Era por esses tempos que Renato ganhava a atenção dos netos em sua calçada, quando sentado em sua cadeira de balanço, fazia jogos que envolviam as operações fundamentais da matemática, ensinando-lhes princípios básicos de soma, subtração, multiplicação e divisão, bem como de raciocínio lógico que ele aprendera, primeiramente a partir dos ensinamentos de Aureliano e depois através dos próprios métodos empíricos ensinados pela própria vida.

A rapidez de raciocínio e o gosto pelos enigmas matemáticos sempre foram características marcantes em um homem simples, humilde, patriarca de uma numerosa família de onze filhos, mas apaixonado pelo saber e aficionado pela perfeição dos cálculos numéricos. Talvez não seja coincidência o fato de muitos de seus filhos e netos terem mais tarde desenvolvido aptidões para as ciências exatas, como a economia, o trabalho com conhecimento bancário e as engenharias. E estes relatam demonstrando certa admiração que em todos os momentos lúdicos e educativos do campo da matemática que tiveram com Seu Renato, nunca o viram usar uma máquina de calcular.

 

Sem caderneta e com a conta na ponta dos dedos

 

João Pedro, o penúltimo à direita, em família no seu amado Xique-Xique.
(Arquivo: Palmeira Amaral)


João Pedro do Xique-Xique era iletrado. Mas isso nunca o impediu de fazer impecáveis contas de cabeça. Era comerciante ambulante do ramo de ovos e galinhas e andava pelos sítios da zona rural varzeense como Caiçaras e Serrotes Pretos fechando negócios em cada terreiro por onde passava. Jamais errava uma conta, no apurado dos cruzeiros que devia ou que merecia receber.

Às vezes acontecia de perder algumas galinhas pelas veredas que davam para o Xique-Xique, pois elas se desprendiam dos barbantes nos quais ele as levava penduradas, no entanto, mesmo sem anotar em nenhuma caderneta, o que não ocorria de perder eram os cálculos armazenados em sua tabuada mental. Além de ser dono de uma memória impressionante, João Pedro possuía uma sabedoria natural, tinha o dom de conversar, a lábia para negociar e o método próprio para fechar as contas de cabeça, deduzindo as somas e subtrações de uma forma tão simples que era difícil de acreditar que não tivesse anotado em algum lugar. Enquanto conversava calmamente, ia tocando nos dedos como quem os contava de forma completamente despretensiosa, então os números vinham-lhe surgindo como palavras fáceis de uma história bem contada, e ao final da prosa a conta estava pronta, os resultados exatos e o negócio fechado.

O comércio ambulante entre os chefes de famílias que residiam em comunidades rurais durante o século passado era uma prática corriqueira e ficou imortalizado também a partir da produção de letras musicais, como a figura do mangaieiro, contextualizada no fim da década de 1970 pelo sanfoneiro paraibano Sivuca. De “Cabresto de cavalo e rabichola, eu tenho pra vender, quem quer comprar?”.

Zé Crispim, o observador do espaço-tempo, rodeado pelos amigos Dario e Delmiro.
(Arquivo: Maria Izabel)

Com morada às margens do Rio Moicó a alguns metros da cidade, Zé Crispim nunca teve acesso ao ambiente acadêmico para entender como justificar as teorias de cálculo. A sua intuição pelos números se baseava em um raciocínio lógico, fonte da própria experiência de vida, associada à observação do que existia ao ambiente natural mais comum, como por exemplo, saber indicar o horário do dia apenas pela referência da luz do sol sob o solo.

O apego pelas operações fundamentais da matemática fez Zé Crispim entender não apenas a divisão de 24 horas que um dia acumula, mesmo não sabendo fazer a leitura dos ponteiros de um relógio, como também, sair do Sítio Barra da Umburana ao sol nascente se baseando pela observação de corpos celestes no espaço, relacionando com o turno de cada parte do dia, e à noite especialmente, sendo guiado pelo ponto de luz da estrela Dalva, que cientificamente é o planeta Vênus, além da posição do Cruzeiro do Sul. No solo, se questionado sobre o trajeto, sabia também de cor a distância exata entre as comunidades rurais do município, que ele próprio percorria sobre chinelos de couro batido e um balaio de palha na cabeça para comprar ovos de capoeira e depois revender. Sem nenhuma anotação com uso de lápis e papel, Zé Crispim respondia na ponta da língua o preço final de cada produto calculado ao quantitativo do que era colocado no seu balaio, companheiro fiel de suas andanças pelas estradas e veredas varzeenses. Além da boa habilidade na realização de negócios, costumava também passar o jogo do bicho, prática bastante comum na região, demonstrando atenciosamente aos apostadores as probabilidades do resultado para o dia.

 

Carta na mão e regra de sociedade

Assis Crispim, o gênio das regras matemáticas. (Arquivo: José Bonifácio)


A boa relação com os números fez parte também do cotidiano de Assis Crispim, irmão de Zé Crispim, que herdou em seu DNA familiar, digamos assim, o mesmo hábito de transformar difíceis questionamentos em resultados. A regra de três simples é conhecida na matemática para identificar valores desconhecidos quando se trabalha com grandezas, como por exemplo, encontrar o preço final de um produto considerando o valor da sua unidade X a quantidade desejada. Um dos causos mais memoráveis aconteceu quando um dos filhos de Assis Crispim limpou o chão de terra e começou a rabiscar com um galho de árvore para aplicar a regra de três ao questionamento de quanto custaria 14 ovos capoeira, sendo negociados cada um ao valor de Cr$ 15 cruzeiros. Antes de concluir o desenho, o raciocínio lógico do pai dispensou o esforço do filho, justificando que bastaria utilizar a regra de sociedade e fazer a multiplicação de 7x30, o que totalizaria o preço de Cr$ 210 cruzeiros. A regra em referência nesse caso é um dos cálculos que costuma trabalhar a divisão proporcional, e nas duas situações, o resultado encontrado seria o mesmo.

Outro método comum àquela época, e que é concordância entre os filhos de Assis Crispim, em favor do bom histórico familiar para com a dominação dos números, se caracterizou pela utilização do baralho como instrumento pedagógico ao raciocínio da matemática. E, entre esse, e tantos outros momentos, Assis Crispim era também o indicado do município para responder em qual dia da semana, considerando o calendário anual, cairia uma futura data festiva. O questionamento, especificamente, era feito principalmente pelas pessoas que gostariam de ter a informação para se programar para a respectiva data.

 

Experiência secular

Sebastião Garcia: longevidade em números. (Arquivo: Vilânia Graziela)


São poucos os seres que conseguem viver uma experiência secular, contrariando as previsões que são calculadas a expectativa de vida, estritamente, em um país como o Brasil. O que dirá, então, ultrapassar essa barreira do tempo, associada a uma realidade de poucas oportunidades de trabalho e encarando o desafio de sobrevivência em uma terra semiárida. Qualquer dia acima do número cem, naturalmente, causa atenção e um marco como esse por si só, gera também curiosidade a quem tem atenção pela matemática. Sebastião Garcia de Medeiros, não apenas gostava de desenvolver cálculos, como costumava contar nas pontas dos dedos e enumerar com fatos tudo o que vivenciou: Fundação de Várzea, então povoado, a partir da organização da primeira feira pública realizada em 11 de outubro de 1926; criação da Vila Epitácio Pessoa e Distrito de Sabugirana, pertencente a Santa Luzia, sendo elevado à categoria de cidade em 11 de Janeiro de 1962, com a posse do seu primeiro prefeito eleito: tempos áureos da extração da scheelita na Mina da Quixaba; chegada da energia elétrica e construção do saneamento básico, entre tantos outros acontecimentos, como a construção do asfalto da rodovia Anízio Marinho e do açude Água Azul e o crescimento de pelo menos cinco gerações.

Sebastião Garcia de Medeiros, em suas últimas décadas de vida, tornou-se para a população local o maior exemplo de vitalidade, sendo ainda, o livro vivo da matemática apreciado pelos alunos do ensino primário das Escolas Odilon de Figueiredo e Sandoval Rubens de Figueiredo, em momentos de cortesia quando ainda recebia visitas.

Qual o seu nome? De quem você é filho? Qual é a sua data de nascimento? Eram as perguntas de Sebastião Garcia, para logo em seguida emendar sua fala com sabedoria a resposta curiosa que todo aluno queria ouvir: você nasceu em um dia Y da semana e já viveu até aqui X dias e Z minutos.

Nascido em 15 de dezembro de 1909, Sebastião Garcia, viveu 102 anos. Foi pai de nove filhos, um adotivo e deixou em vida uma família com 36 netos, 56 bisnetos e 13 tataranetos. Se vivo estivesse, lendo este texto, talvez arriscasse algum cálculo. A soma de todas as palavras, o tempo de escrita... Não sabemos.  Mas, igualmente os demais e muitos outros pais e mães de família que viveram esse tempo, Sebastião Garcia não teve acesso ao conhecimento, não teve a oportunidade de estudar e nem frequentou faculdade.  Sem formação, acumulou experiências, fazendo da vida uma eterna adição transformando números em um legado de inspiração e multiplicação da sabedoria.

 

Tabuadas da vida

 

Tantos personagens que ilustram a crônica da vida varzeense provam que os números da vida não são frios, mas cheios de história e de valores atemporais. As tabuadas da vida são feitas da conta dos sonhos vividos e marcadas pelo suor do trabalho de tantos pais e mães de família que ajudaram a construir o município. E é nesse contexto que tantas histórias se destacam e se multiplicam, extrapolando o limite da matemática exata das coisas com seus resultados perfeitos e noves fora.

 Os matemáticos sem formação que passaram pela história do município, apesar de simples e muitas vezes anônimos, deixam um relevante legado de saber e método, como a credibilidade ao trabalho intelectual e o estímulo ao raciocínio lógico, bem como a paixão pelo conhecimento, característica, aliás muito forte entre as famílias varzeenses que historicamente valorizam a educação e marca importante da inteligência do nosso povo.

  

11 comentários:

  1. Parabéns jovens pelo belíssimo texto !

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  2. Parabéns Epitácio belo brilhante trabalho que vc vem fazendo com as histórias dos nossos saudosos sábios que nós deixaram muitas saberias

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  3. Epitácio, voce é genial! Parabéns pela escrita do seu texto. Muito bonito homenagear pessoas tao importantes, só voce mesmo meu amigo para ter essa ideia.

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  4. Quero aqui parabenizar estes grandes jovens varzenses que tem enteresse em levar adiante a nossa história e de nossas raízes,Meus jóvens, vocês são dignos do nosso respeito atenção, e agradecimento põe está tão nœbre ação.Epitácio Germano, e Rafael abraço vocês pelo grande mérito

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  5. Maravilhosos relatos de inteligência e sabedoria nata. Parabéns.

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  6. Louvado seja Deus no tempo ou fora de tempo
    Temos que aplaudir esses homens que foram verdadeiros e grandes heróis, assim como como você foi iluminando com esse talento meu muito obrigado por essa linda homenagem.

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  7. E eu, como sempre, sigo apaixonado por esses textos.

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  8. Parabéns, os textos são maravilhosos,vocês pessoas iluminadas e fazem estoria no nosso município .

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