sábado, 9 de outubro de 2021

O CONCURSO DA MAIS BELA VOZ

José Edivaldo durante a apresentação no concurso Mais Bela Voz em 1991. (Arquivo: José Edivaldo)


Por Rafael Rubens


Tudo começou com uma história de amor. Como, aliás, é comum no universo poético canções que as ondas de rádio propagam. Pelos idos dos anos 80, Conceição de Biu Ramalho namorava o radialista Ednaldo Sena, que trabalhava na rádio Rural AM de Caicó. E ele organizava o concurso denominado Mais Bela Voz do Seridó, que envolvia participantes Caicó e circunvizinhanças. Era um espetáculo que agitava o contexto local e entoava notas de arte aos ares seridoenses.

Realizado desde 1969, o concurso, que surgiu de uma iniciativa das emissoras de educação rural das cidades de Natal, Mossoró e Caicó rapidamente se consolidou como um sucesso regional revelando grandes nomes da música popular brasileira como a norte-rio-grandense Dodora Cardoso e o paraibano Chico César. Na região do sertão do Rio Grande do Norte, o evento ganhou cores e contornos locais e logo a Mais Bela Voz do Seridó se constituiu como uma exitosa experiência encantando os ouvintes da região e aglutinando talentos da terra.  Como a rádio Rural de Caicó expandia sua audiência para além dos seus limites municipais, os amantes da cultura musical naturais de outros municípios passaram a ter a chance de também participar do evento em eliminatórias locais, caso dos municípios de Ouro Branco, Parelhas, Catolé do Rocha etc.

Conceição Ramalho então viu no evento muito potencial para alavancar os talentos musicais de sua cidade natal e convenceu Ednaldo Sena a estender uma das eliminatórias para Várzea, abrindo, ela mesma, a primeira edição do evento. Inicialmente, a proposta da equipe da rádio rural era fazer um evento genuinamente local, com a participação de calouros especificamente varzeenses. No entanto, em virtude da falta de um número suficiente de participantes, foram aceitas inscrições de outras cidades, a exemplo dos fraternos municípios do Vale do Sabugi, contanto que o vencedor tivesse ciência de que representaria Várzea nas fases subsequentes do evento.

Organizado inicialmente por Bastinho Soares, que administrava o Clube Municipal, sede das apresentações, o evento da eliminatória varzeense da Mais Bela Voz do Seridó se consolidava como um acontecimento importante na cidade, lotando as dependências do clube de espectadores animados e ansiosos por boa música. Por questões de logística interna, Sérgio de Lúcia de Quinca passou a administrar o clube municipal e fez uma parceria com Soró de Genival Dantas para que ele desse um suporte para o evento, uma vez que o clube não dispunha de material de bar e o estabelecimento de Soró ficava vizinho ao local.

A jovem Vilânia Graziela, também filha de Lúcia de Quinca, organizava as inscrições do concurso, enquanto seu irmão Sérgio cuidava da organização da festa e Ednaldo Sena conduzia a apresentação com maestria jornalística de mestre de cerimônias.

O júri técnico geralmente era formado por pessoas que movimentavam o cenário musical da cidade, a exemplo de representantes da Filarmônica Abel Coelho, bem como por artistas da terra e pelo menos um representante da rádio Rural de Caicó. Personagens como Dário, Carlinhos e Lulu de Chiquinha de Mena eram presenças recorrentes entre os jurados do concurso.

 O evento movimentava um público apaixonado, desde os organizadores aos espectadores que achavam lugar nas cadeiras do clube, além, é claro dos ouvintes da rádio rural de Caicó, que não haviam podido comparecer presencialmente à eliminatória, mas que aguardavam ansiosamente pela apresentação dos varzeenses nas ondas de amplitude modulada de seus radinhos de pilha.

 

Disputas em família

 

Não que o dom natural de cantar seja algo genético, mas em Várzea isso parece ser uma regra, principalmente quando se trata dos animados e talentosos personagens com raízes na Pedra Dágua, e o Mais Bela Voz do Seridó deixou essa característica familiar cada vez mais forte e enraizada na alma do varzeense.

Além disso, ocorria de muitas vezes pessoas da mesma família concorrerem pelos primeiros lugares no palco e no coração dos jurados. No ano de 1987, por exemplo, as irmãs Pedrovirgem e Pedrosina, filhas de Neném de Valdir disputaram as primeiras posições para um exigente corpo de jurados formado pelo maestro Nandinho, Ivan Lucena, o jovem cantor e tecladista Carlinhos e Reinam, filho de Nandinho. Interpretando “A roda”, estrondoso sucesso popular da cantora baiana Sarajane naquele ano, Pedrovirgem ficou em primeiro lugar, seguida por Socorro de Fausto Malaquias e Pedrosina, que empatou na terceira colocação com Verônica de Desterro.

As irmãs Pedrovirgem e Pedrosina, destaques no concurso Mais Bela Voz de 1987

(Arquivo: Vilânia Graziela)

Naquela noite a festa foi realizada ao ritmo animado da banda ourobranquense Ariaxé, que se encontrava no auge de sua carreira musical, e fez a alegria do público que se encontrava no Clube Municipal.

Outra edição bastante singular aconteceu por meados dos anos 90, pois o pódio do Mais Bela Voz foi totalmente ocupado por uma família só, naquilo que parecia ser uma disputa fraterna entre os filhos de Dilma, que faziam jus ao espírito de festa presente na mãe e à herança do talento do pai para cantar, já que João de Zé Arcanjo era conhecido como um grande intérprete das canções de amor de sua época. Naquela edição os quatro irmãos participaram: Dinassalvo, Francisco, Lindinalva e Ronaldo. Francisco cantou Cabocla, clássico de Nelson Gonçalves, talvez para homenagear seu pai com uma canção de seu artista favorito, entretanto, porventura tomado pela emoção que a música provocou, acabou errando na segunda parte da canção, o que lhe fez ficar de fora das primeiras colocações.

 Interpretando “Cariri que eu amo”, sucesso da banda de forró eletrônico Mel com terra, Ronaldo acabou se consagrando o vencedor daquele ano, deixando Dinassalvo em segundo lugar e Lindinalva em terceiro, mas deixando principalmente uma sensação de orgulho na família, que abrilhantou aquela noite de festa e honrou o talento da terra natal.

 

A canção que virou alcunha do intérprete

 

Em outra edição do concurso, José de Manoel Pedra Preta sagrou-se campeão ao interpretar a música Sarah, famosa canção do sergipano Balthazar. Irmão de Maguila, o mago dos teclados, cantor varzeense conhecido pelos amantes da seresta em boa parte do país, José provou naquela noite que também tinha voz e finalmente chegara a vez de mostrar os seus dotes artísticos.

Desde aquela noite, José Pedra Preta, para todos que o conheciam, deixou de ser José, passando a ser chamado simplesmente de Sara, numa referência direta à sua conquista no Mais Bela Voz. Era uma homenagem singela, porém profundamente significativa para um homem humilde, mas dono de um talento grandioso e uma enorme sensibilidade de artista. Certamente até hoje quando alguém o chama de Sara, nome feminino de origem hebraica, ele viaja no tempo até a noite iluminada em que foi aplaudido no Clube Municipal de Várzea, cantando e encantando os corações presentes, principalmente o júri que o escolheu como o campeão da eliminatória varzeense.

 

É o amor em carreata

 

Era o ano de 1991, e as rádios de todo o país rendiam-se ao estilo musical das duplas sertanejas. Naquele ano, Zezé di Camargo  Luciano surgiam no cenário da música brasileira com um sucesso avassalador, que figurava entre as mais tocadas nas emissoras de rádio. “É o amor” era um hit popular com uma letra de apelo romântico e uma melodia chiclete, que explodiu de forma meteórica em todos os recônditos do Brasil. Na pequena Várzea, um jovem talento da terra que adorava cantar e compor as próprias canções quando ouviu a música de Zezé di Camargo e Luciano, foi amor ao primeiro acorde. José Edivaldo, filho de Chico Hermógenes já havia participado de outras edições do Mais Bela Voz do Seridó, como na ocasião em que cantara “Meu ex amor” de Amado Batista no município de Ipueiras.

Foi, no entanto, com “É o amor” que ele vislumbrou sua chance maior de finalmente vencer o concurso, e o melhor, sendo aplaudido no palco que o viu nascer. Quando cantou o sucesso nacional no palco do clube municipal, José Edivaldo fez o local explodir em euforia, contagiando o público com sua performance, e a cada aplauso ele se sentia um artista de renome, convencendo os jurados e conquistando o primeiro lugar naquela eliminatória.

Naquele ano, a euforia dos varzeenses não se resumiu à eliminatória local, pois a apresentação de José Edivaldo empolgou muita gente pela possibilidade real de uma classificação varzeense para a final do concurso que seria realizada em Caicó ou mesmo o título definitivo de mais bela voz do Seridó.

No dia em que seria realizada a semifinal do evento na cidade vizinha de São João do Sabugi, uma carreata acompanhando José Edivaldo foi organizada em apoio a ele, que tentaria mais uma vez convencer os jurados norte-rio-grandenses com a mesma “É o amor” que lhe rendeu a vitória na eliminatória local. No entanto, a euforia deu lugar a, digamos, uma certa frustração, e o artista varzeense acabou desclassificado na semifinal. Assim, a hora da estrela do talentoso jovem acabou mesmo ficando nos limites de seu próprio município, sendo eternizado na memória do evento como um de seus melhores e mais emocionantes capítulos.

O próprio José Edivaldo, no entanto, prefere ser modesto e três décadas depois afirma não ter alimentado nenhum tipo de decepção pelo resultado, creditando sua não classificação a “apresentações melhores” dos seus concorrentes em São João do Sabugi, preferindo guardar com amor e orgulho esses inesquecíveis momentos em que brilhou nos palcos varzeenses.

 

Ecos do passado

 

Mais de vinte anos depois da realização da última edição do concurso da mais bela voz, muita gente ainda lembra com nostalgia daqueles eventos regados de alegria que unia os varzeenses e incentivava os dotes artísticos da cidade. Sempre surge alguém com uma história para contar, da lembrança que ficou de um desses eventos que tanto marcaram a história do município. E nisso mais narrativas vão se somando, compondo as partituras da maior de todas as canções varzeenses, que é a história de sua própria gente.

Se tudo começou com uma história de amor, “o que tem para hoje é saudade”, porque não é demais dizer que o concurso da mais bela voz varzeense é também em si, uma história de amor; do seu povo para com a arte e para com sua própria terra. A saudade do evento que muitos sentem no presente é sinal de um passado feliz, eternizado pela cena das canções interpretadas e relembrado pela memória de seus atores.

 

 

 

 

4 comentários:

  1. Parabéns a todos pela iniciativa de resgatar nossa história.

    ResponderExcluir
  2. Que legal! Texto emocionante! Parabéns aos idealizadores desse brilhante projeto Cidade Saudade.

    ResponderExcluir
  3. Belo texto!!!! Relato que nos fez reviver!!!

    ResponderExcluir